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    Tagueado com " Pr. Marcello Fraga"

    A ESPERANÇA MESSIÂNICA NA TRADIÇÃO BÍBLICA

    1 mar 2016   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários

    “ Eu sei, respondeu a mulher, que há de vir o Messias, chamado Cristo.Quando vier, Ele nos anunciará todas as coisas.” Jo 4:25

    O substantivo hebraico Maxiah tem com significado untar, ungir. O conceito de Maxiah passa na tradição do antigo testamento a retratar alguém com representatividade e legitimidade concedida por Deus. Comumente, a ocorrência do termo Maxiah junto ao nome de Deus reafirma a posse do carisma divino ao eleito no ato da unção. O ungido tem a missão de ser o mediador da bênção divina ao povo.

    Outro aspecto importante na tradição messiânica do antigo testamento é a relação estreita entre o messianismo e esperança bíblica. A esperança bíblica tem o seu nascedouro no contexto onde predomina a injustiça social, a violência de natureza diversa, instabilidade econômica, política e a perda do significado e sentido da vida, principalmente entre os marginalizados e sofridos pelo processo de exclusão social e religiosa.

    O messianismo está pautado no imaginário idealizado, que enfatiza a busca por um novo significado existencial. O pavimento do messianismo bíblico está na criação de uma nova ordem social e religiosa e que tem na esperança em Deus a sua maior expectativa.

    A esperança messiânica perpassa a história do povo bíblico em todo o antigo testamento. Destaca-se o messianismo do reino do sul, onde a campesina Judá e a cosmopolita Jerusalém alimentam sua esperança messiânica. A tradição messiânica de Jerusalém está fundamentada na teologia construída sobre a casa de Davi. A sucessão real ancorava-se na promessa de uma dinastia sem fim. As principais características do  messianismo de Jerusalém é a sua institucionalização fundamentados na elite sacerdotal, nos profetas da corte e nos funcionários e políticos da monarquia.

    O símbolo do cetro real demonstra a consciência que se constrói em torno dessa tradição. A esperança messiânica de Jerusalém é de característica guerreira, onde força, dinastia sem fim e ações bélicas marcam suas ações. O messianismo de Judá tem sua esperança messiânica no modelo do Messias-pastor e o símbolo no cajado. O referencial está na unção do jovem e frágil pastor de ovelhas, filho de Jessé. Belém é o lugar que representa a esperança de pastores, agricultores e profetas, como Miquéias.

    No messianismo de Judá, evidencia-se o carisma ( unção de Javé), a fragilidade existencial, o cuidado pastoral e a coragem nas adversidades e pelejas.

    Na tradição dos evangelhos, percebe-se que há grupos e partidos religiosos que alimentam essas duas tradições messiânicas. Nos evangelhos, a perspectiva está no anúncio do Cristo de justiça, sabedoria e direito (livro do Imanuel) relatado na literatura messiânica do profeta Isaias e na construção teológica de Miquéias sobre o pastoreio do Messias, onde o símbolo é o cajado e a unção é de Javé.  

    No evangelho de João, percebemos uma teologia pastoral, onde o Messias Jesus é descrito como o bom pastor, que dá a vida por suas ovelhas. Na tradição do novo testamento, não há evidências que corroborem  a esperança de um messias guerreiro, que restauraria Israel através de ações bélicas, mas sim do messias comprometido com o ser humano, cujo maior propósito é o cuidado e o direito à vida abundante.

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    Rev. Marcello Fraga

     

     

    A PALAVRA DE DEUS NO COTIDIANO: uma breve reflexão teológica!

    28 jan 2016   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários

    “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz e mais   penetrante do que qualquer espada  de dois gumes; ela penetra até a divisão da alma e do espírito, das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração”. – Hb 4:12

     

    A PALAVRA DE DEUS NO COTIDIANO: uma breve reflexão teológica!

     

    Para que haja uma reflexão constante sobre o uso da bíblia e sua utilidade na vida e prática do ser humano, é necessário  compreender como a dinâmica existencial foi vital na construção dos textos bíblicos e como tornou-se imprescindível na compreensão dos dilemas e realidades da vida diária.

    É evidente que os textos bíblicos nasceram da relação estreita entre a fé do povo e as demandas do cotidiano, entre a relação do ser humano com o seu Deus. Como em qualquer momento histórico, o cotidiano apresenta-nos as suas demandas e desafios. É neste contexto que a Igreja é chamada, de alguma forma, a ser um farol que ilumina o caminho, tendo na sua tradição, herança teológica e bíblica, os principais pilares na compreensão e discernimento da realidade cotidiana.

    É importante salientar que a bíblia no cotidiano deve interagir e pontuar caminhos que respondam com as demandas do tempo presente. O maior desafio sempre será levar o texto de volta à vida e assim, direcionar o ser humano na descoberta do sentido e significado do amor, da fé e do serviço ao próximo.

    É de vital importância ressaltar que os textos bíblicos nascem primeiramente a partir de um ambiente de oralidade e se desenvolvem até alcançar a forma de textos canônicos. Levar os textos bíblicos de volta para o chão da vida é e sempre será um desafio a qualquer geração.

    Não relacionar o texto bíblico  à vida pode provocar no ser humano um distanciamento da espiritualidade cristã, bem como da saudável aplicação do mesmo ao caminho. Já aconteceu em vários momentos da história do cristianismo o distanciamento do povo, da tradição e reflexão bíblica. Do cristianismo nascente, com a sua percepção aguçada sobre a importância da correlação espiritualidade e cotidiano, passando pelo dogmatismo eclesiástico, desenvolvido na institucionalização da Igreja, até o período histórico, denominado de iluminismo, que enxergava os textos bíblicos meramente como construções históricas, sem utilidade na vida presente, e assim, dando a razão à condição de ser a intérprete da vida diária.

    Outra questão é o distanciamento relacional entre a bíblia e o cotidiano. Distanciamento que poderá provocar a perda ou reducionismo do significado que o texto tem para a existência e, assim, servir meramente para uma simplória sistematização e normatização dos pressupostos da fé.

    Um exemplo pertinente sobre a relação bíblia-cotidiano está no texto do livro de Deuteronômio conhecido pela tradição judaico-cristã como Shemá ( Dt 6:4-9). Nele, é possível encontrar subsídios para a releitura do evangelho de Jesus fundamentado em     dois principais mandamentos: “Amar a Deus e ao próximo”.

    No Shemá/ouvir, amar é preceito para a vida. Amar é necessário e dever ser feito com intensidade de ser e com vitalidade existencial.  No mesmo contexto, está a importância do ensino, que se desenvolve a partir da compreensão do significado da palavra (dabar) e caminho (derek).  Palavra e caminho estão correlacionados à vida e à presença de Deus no cotidiano. O Shemá/ouvir enfatiza as marcas distintivas que alicerçam o caminho na palavra e a palavra no caminho. É um chamado permanente a adorar a Deus e a ensinar e aprender.

    Ao estabelecermos critérios para a prática da bíblia na vida diária, é importante salientar a necessidade de aplicá-la às diversas dimensões da existência e espiritualidade. Da liturgia até as mais modernas ferramentas de comunicação social.  Em todos os espaços, a ênfase deve ser sempre o iluminar o caminho através da presença e palavra de Deus.

    Os textos bíblicos não devem ter outro sentido e significado que não seja viabilizar a vida. Dissociados da vida e do cotidiano, não somente inviabilizam a existência, como submetem a consciência a um estéril literalismo, que desenvolvido na rigidez das regras, estabelece-se como fundamentalismo religioso.

    A vida cotidiana não pode ser a intérprete dos textos bíblicos. É a palavra que ilumina a vida e não o cotidiano. Quem assim pensa, submete a sua consciência ao subjetivismo e incoerência bíblica. Outro perigo é a tendência a ler as escrituras como simples documentos históricos ou coletânea dogmática. Tais leituras, dissociadas da experiência existencial, desvalorizam a história de fé de um povo para sustentar-se nos pressupostos racionalistas.

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    Rev. Marcello Fraga

    O Pecado da cumplicidade

    31 jul 2015   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários

    “ Ouvi outra voz do céu, dizendo: Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participares do seus flagelos.” Ap 18:4

    Há alguns anos, o Brasil parou para acompanhar o julgamento do casal Nardoni, acusado de ter assassinado a pequena Isabela. Sem entrar em detalhes sobre o caso e os seus eventuais desdobramentos, uma questão, em particular, sempre me inquietou:  Quem protege quem? Por quê?
    É público e notório que a perícia policial chegou ao consenso de que o casal  estava no mesmo espaço geográfico da vítima. Sendo assim, que nível de cumplicidade esses dois desenvolveram, que são capazes de suportar anos e anos em uma gélida prisão somente para proteger o outro?
    A Bíblia relata vários casos de cumplicidades que se escondem atrás de sentimentos “nobres”. Isso mesmo, a cumplicidade se esconde atrás das supostas virtudes humanas, esconde sua face na verdade, no amor, na generosidade, mas, principalmente, na fidelidade. Ela se faz confundir com essas virtudes para estabelecer a sua  verdadeira face, que é a leviandade e a mentira. Vejamos alguns exemplos:

    a) A cumplicidade no ambiente familiar: na história dos patriarcas, o melhor exemplo sobre o perigo da cumplicidade em ambientes familiares está na história do relacionamento que Rebeca desenvolve com seu filho caçula.
    Talvez escorada no seu conceito particular de promessa e escolha divina, Rebeca passou a demonstrar em seus sentimentos e atitudes, a sua preferência por Jacó. A forma como Rebeca se relaciona com Jacó demonstra que ela desenvolve um nível de cumplicidade que acaba por destruir os laços de amor e lealdade, que são a base para a comunhão de qualquer família.
    No intuito de proteger o seu filho predileto, ela não mede esforços em criar circunstâncias adversas para sua família. Apesar do relato histórico-bíblico narrar que Isaque tinha uma aparente predileção por Esaú, pois o primogênito assemelhava-se a ele no que tange à aptidão profissional,  nada há sobre o uso dessa preferência como uma forma de desvalorizar ou discriminar seu filho Jacó.
    Rebeca constrói com Jacó uma cumplicidade doentia, criando no seio da família uma teia de mentiras e intrigas. Todas as suas ações de suposto cuidado e amor com Jacó acabaram por gerar inimizades entre os irmãos, que só não chegaram às vias de fato, porque Deus, na sua infinita misericórdia e graça, transformou a cumplicidade de Rebeca e Jacó em oportunidade de perdão e reconciliação.
    A verdade é que muitas famílias estão dilaceradas em nome da cumplicidade. A cumplicidade entre pais e filhos esconde os diversos problemas que as famílias têm enfrentado nos dias de hoje. Por trás dos grandes problemas existenciais que assolam a humanidade, está a omissão dos desvios de caráter que são manifestos no cotidiano de cada família.   Quantas pessoas demonstram falta de integridade nas suas palavras e ações, porque os que deviam corrigi-las, justificam suas omissões em nome de sentimentos ditos nobres. Quantos filhos e filhas estão aprisionados em pecados e delitos porque seus pais acreditam que contrariá-los é uma forma de perder o amor dos mesmos? A única forma de manter a saúde familiar é estabelecer relacionamentos pautados na transparência e verdade, pois onde há luz, as trevas não manifestam a sua face.

    Cumplicidade no ambiente social: A cumplicidade também manifesta as suas impiedosas garras nas relações sociais, porém, é nos ambientes de poder que ela encontra o seu melhor habitat. Perceba como a política e os ambientes profissionais são pautados em relações de cumplicidade.  Quem ainda não foi pressionado a mentir ou omitir em nome de uma suposta “virtude” de seus superiores?  Vejamos o caso relatado no livro de Samuel entre David e Joabe.
    Escorado na sua posição de rei, de ungido, David envolve o seu líder militar nas suas desesperadas tentativas de esconder o seu adultério. Em contrapartida, Joabe estabelece com David uma cumplicidade tal, que para proteger o seu líder, cumpre minuciosamente todas as orientações e diretrizes que culminam com a morte de um inocente. Joabe é cúmplice em tudo de Davi. Joabe acoberta o pecado de seu superior, em nome de uma suposta fidelidade. Joabe é do tipo que se esconde atrás do silêncio, crendo na justificativa diabólica estabelecida nas relações de cumplicidade: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

    Cumplicidade no ambiente espiritual: se há um nível de cumplicidade que é doloroso é o  da construída em ambientes de espiritualidade. Nada é mais anti-evangelho que ver e ouvir pessoas defendendo com unhas e dentes os pecados  de seus irmãos e irmãs de fé. Geralmente baseados em interpretações tendenciosas.
    Quem ainda não ouviu alguém justificar os constantes  pecados do próximo,  afirmando  que errar é humano, que nem Jesus Cristo agradou todo mundo, que tudo aconteceu ou está acontecendo porque o diabo se levantou contra a vida dele ou dela? Tudo, claro, em nome da “aliança”, do “amor” e outras supostas virtudes. Tudo isso seria louvável se esses valores fossem pautados na verdade e no desejo de contribuir para o crescimento espiritual do próximo, no intuito de  ajudá-lo  a crescer na verdade e integridade.
    A história bíblica narrada no livro de crônicas sobre a aliança entre os reis Acabe e Josafá, líderes políticos dos reinos do norte e sul, demonstra como a cumplicidade nas esferas de espiritualidade podem levar ao caos existencial-relacional.
    Era costume, nos reinos do sul e norte, a presença de profetas nos corredores e salões nobres dos palácios. Gozavam de relativo prestígio, pois em muitos momentos de dúvidas e inquietações, eles eram convocados para revelar a direção divina.
    No relato do livro de crônicas, Acabe convida Josafá para uma aliança, pois juntos poderiam dominar o território pertencente ao povo sírio. Josafá, então, convida  Acabe a consultar os profetas palacianos. Acabe  convoca quatrocentos profetas, que só liberam palavras doces aos ouvidos do rei, dizendo que Deus era com ele, que ele venceria fácil, que o inimigo iria perecer, que ele era o escolhido de Deus entre outras “palavras proféticas”. Josafá, numa atitude de desconfiança e bom senso, pergunta se há algum outro profeta para se consultar a Deus. Acabe afirma que há  um chamado Micaías, mas esse, afirma o rei, só profetiza o que é ruim, não libera uma palavra de “ bênção”para ele.
    Acabe é como alguns cristãos, que se cercam de pseudos profetas e profetisas para ouvirem palavras que justifiquem os desejos do coração.
    A verdade é que se Acabe tivesse ouvido Micaías e se arrependido de seus pecados, Deus poderia mudar o seu destino, porém Acabe estava em busca de cúmplices e não de servos leais.
    Que Deus nos ensine a construir relações de lealdade, onde não haja sombra de cumplicidade.  Que ele nos faça  entender que respeito, verdade, amor  e honra são virtudes que sustentam a lealdade.

    Do seu pastor, que busca lealdade ,
    Marcello Fraga.

    Canção do Exílio

    30 jun 2015   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários

     SALMOS 137

     Exílio existencial de todos nós!

     

    O salmista expressa o sentimento de pessoas exiladas que foram arrancadas de súbito de seu mundo construído com suor e lágrimas. Num piscar de olhos viram sonhos construídos em meio a dores de parto sendo dolorosamente transportados para uma realidade fria, crua e inalterável.

    No caminho da existência, abruptamente, por circunstancias alheias à nossa vontade e querer somos lançados no “exílio” existencial. De repente, nos pegamos interiormente em terras estranhas. Tudo à nossa volta muda, se transforma, se mutila. Nada planejado, projetado, sonhado. Sobreveio-nos de assalto e invadiu o nosso mundo com uma força destrutiva, arrancando violentamente tudo do seu devido lugar, sem que pudéssemos expressar qualquer reação. Totalmente impotentes.

    …Assentávamos e chorávamos… O salmista expressa no exílio, em meio às   suas dores, diante de uma realidade aparentemente imutável, as suas próprias angústias, tristezas e pavores. As margens dos rios, para os antigos povos, bem como para o povo de Deus, era um lugar de comunhão devocional e oração. Espaço liturgicamente escolhido para derramar lamentos e choros de natureza angustiante. Lídia, discípula de Jesus, tinha por hábito reunir-se à beira de um rio junto a outras mulheres de fé para cultuar e amar a Deus. Quando vivemos no “exílio existencial” qualquer lugar que acolha as nossas lágrimas torna-se o nosso  “rio babilônico”. O quarto, o canto de uma praia, o altar de uma igreja, um ombro de um amigo ou amiga. Enfim, qualquer lugar no espaço e tempo é propício para acolher em paz as nossas dores e lamentos.

    …Lembrando-nos de Sião… Quando somos arrancados do nosso lugar de segurança e paz, até as melhores lembranças nos machucam. As perguntas começam a invadir nossa consciência, de tal forma, que cada indagação na alma apenas castiga o nosso ser. O que fizemos para merecer tal realidade? É a pergunta mais inquietante e aterrorizadora que o ser humano pode fazer a si mesmo. No mínimo, tal pergunta apenas corrobora para a instalação da culpa na alma. Qualquer lembrança permeada de culpa deixa de ser uma mera saudade para ser uma profunda ferida.

    …Pediam-nos canções… No exílio, por mais belo que seja o que nos cerca, tudo parece perder o seu brilho e cor. Tudo passa a ter um tom acinzentado. Como alegrar-se? Como celebrar? Se nada mais soa de importante significado e sentido.

    O passado torna-se um cativeiro existencial. Perde-se a força do presente e a esperança e fé no futuro.

    …Se eu me esquecer de ti… O medo de olhar para o futuro, de vislumbrar novas possibilidades, acorrentar-nos ao passado. Não conseguimos olhar para a vida, a não ser pela ótica das feridas que nos marcaram. Nos melhores corações martelam as palavras dos que nos feriram ou as circunstâncias que nos afligiram. Para quem não tem saudade esperançosa do futuro, quase tudo se torna motivo de mágoas e rancores. Muitas vezes contra si mesmo.

     

    Concluindo: O que o Salmo 137 nos traz como reflexão para o nosso caminhar com Deus? 1. O exílio existencial é uma possibilidade de reconhecermos a nossa impotência e fragilidade diante da vida e realidade. 2. O exílio existencial é um doce convite divino para uma anamnese de nossa comunhão com Deus e com o próximo. 3. O exílio existencial é o convite para a nossa reaproximação com o Senhor de todos os caminhos. 4. O exílio existencial é o momento de nutrir-nos de esperança e fé diante de ambientes que trabalham contra os sonhos e anseios de uma vida abundante.

     

     

    PÁSCOA: O novo e vivo caminho do discipulado

    2 abr 2015   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários

    Há alguns anos, em visita à cidade de Londres, após participar de um pequeno circuito pelos principais marcos do metodismo histórico, percebi, com clareza, que o movimento de renovação espiritual que havia transformado a realidade sociocultural da Inglaterra do século XVIII, hoje, é apenas uma lembrança na memória de alguns religiosos anciãos e em placas alusivas em determinados logradouros londrinos. A pergunta que ecoa em nossas mentes e corações é: o que houve com o cristianismo, que em poucas décadas perdeu seu vigor e relevância? Por que a Europa já é considerada pós-cristã? John Stott, teó-logo e pastor anglicano, em seu livro Cristianismo Contemporâneo cita uma palestra ministrada a um grupo de estudantes ingleses de uma universidade euro-peia, na qual relata que, após um sincero diálogo, indagou-lhes quanto ao porquê de eles negarem a fé cristã. Os jovens responderam afirmando que não havia entre eles sentimentos de negação à fé, mas sim um questionamento profundo sobre a relevância do cristianismo. Para esses estudantes, o cristianismo sendo oriundo de um ambiente rural, datado do primeiro século de nossa era, pouquíssimo teria a acrescentar às gerações, filhas da modernidade, mergulhada na consciência das virtualidades. Dentro deste contexto, a indagação que ecoa, em nossas mentes e corações, é: como comunicar o Evangelho da Páscoa de tal forma que ele seja de vital relevância e significado, para uma sociedade globalizada e antropocêntrica que enxerga o cristianismo como uma fé e cultura arcaicas e instrumentalizadas para a alienação?

    Quando lemos e refle-timos sobre os últimos momentos da morte e ressurreição do Senhor Jesus, sobre como os discípulos reagiram diante de tais circunstâncias, torna-se nítida a pergunta que inquietava suas consciências: como agir e reagir diante de tudo o que estava acontecendo? O sentimento era de angústia, de vazio, de ausência paterna; na verdade, o de estarem perdidos no caminho da existência.

    Estariam eles convencidos de que o sepulcro na rocha havia silenciado e obscurecido as palavras e a vida de Jesus? A cruz os violentou de tal forma que os fez crer que a vida cristã é de fato irrelevante? Lucas relata com exatidão, acerca dos apóstolos que caminhavam em direção aos irmãos, a angústia de dois simples discípulos que ainda estavam aprisionados pelas cenas violentas da sexta-feira da paixão.

    Apesar de ser um belo entardecer de domingo, eles estavam acorrentados pelas lembranças das últimas horas. Angustiados, entristecidos, perdidos, retornando aos lugares do passado aminhavam em retorno a uma pequena vila perto de Jerusalém, chamada Emaús. Jesus se aproximou e passou a caminhar com eles, identificando-se com a dor que os angustiava e ouvindo relatos permeados de porquês. Durante o percurso da desilusão, Jesus passa a inquiri-los sobre os motivos de suas inquietações e, com paciência divina, ouve sobre as expectativas frustradas geradas por um evangelho distorcido em suas consciências. Após ouvi-los atentamente, o Jesus ressuscitado, ainda imperceptível para uma consciência plena de verdades religiosas cauterizadas, passa a expor o reino como caminho de graça e não como projeção política de natureza espiritual. Jesus os ensinou no caminho, no partir do pão que, como Igreja, ao propagarmos um “evangelho” comprometido com nossas ambições e anseios, no mínimo lhe agregamos frustrações. E, no caminho, este acaba tornando-se irrelevante para quem o ouve, e sem significado existencial para quem o acolhe. As Boas Novas, o Evangelho da graça, para ser relevante e de vital significado para o ser humano precisa resgatar o seu verdadeiro significado de vida plena oferecida na gratuidade do amor divino. O caminho do discipulado, a Páscoa do cordeiro, só frutifica à medida em que vivermos para o Evangelho pascal, abandonando o “evangelho” que nada mais é do que a projeção dos nossos sonhos e ambições. O discipulado do caminho de Emaús converge de fato para o amor de Cristo em nós e no próximo. Amor a Cristo não carrega bandeiras e flâmulas em favor ou defesa de algo ou alguém, mas é uma belíssima possibilidade para todo(a) aquele(a) que interioriza em seus corações e mentes o caminho, a verdade e a vida dentro de si. Jesus demonstrou que somente no caminho, partilhando o pão e compartilhando a graça, é que o Evangelho se torna relevante e discernido como vontade divina para a humanidade. “…Não nos ardia o coração quando ele falava, quando expunha as Escrituras?…” O discipulado leva-nos à compreensão de que sem o batismo do Espírito, sem coração aquecido, sem fogo no caminho, seremos apenas um ajuntamento de pessoas em torno de uma liturgia, esforçando-nos para vivermos uma doutrina sem vida. A Páscoa remete-nos para o domingo da ressurreição, para os áureos dias de Cristo na Galileia e em Jerusalém. É caminho de vida abundante que só pode gerar Pentecostes nos corações dos discípulos.

    Do seu pastor

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    Rev. Marcello Fraga

    2015: TEMPO DE ANUNCIAR A GRAÇA E FAZER DISCÍPULOS E DISCÍPULAS

    23 dez 2014   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários

    “Portanto, ide e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado, e eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século”. (Mt 28:19-20)

    Uma das canções seculares mais celebradas no final de um ano é a que se despede do ano que está por findar e celebra a chegada do novo ano.

    Quem não cantou: “…Adeus ano velho. Feliz Ano Novo! Que tudo se realize, no ano que vai nascer…”. O fato é que grande parte faz o velho e desgastado relatório de seus erros, dificuldades, lutas e por aí… E no último dia do ano, anseiam por novas esperanças, novos sonhos, novos projetos, novos objetivos e acredita-se que tudo será conforme projetado no fértil imaginário.

    As melhores horas, via de regra, são as primeiras de um novo ano. Pois elas nos fazem crer que tudo será possível. Com o passar dos dias, com a chegada de novos meses, percebemos que nossas esperanças, sonhos, projetos, entre outras coisas, vão perdendo o seu espaço para os nossos velhos hábitos e comportamentos, cristalizados com o passar do tempo. Com isso, aquele mergulho na esperança que “encharcou” o nosso ser de vida, vai com o passar dos dias “secando” pela falta de propósito e disciplina.

    O principal problema é manter a fidelidade ao propósito definido e a lealdade à disciplina proposta. Perece-se, simplesmente, por causa dos percalços do caminho.

    Como Igreja, reproduzimos os mesmos comportamentos. A cada ano, sonhos, projetos, estabelecimentos de alvos… Só que a rotina da comunidade, a indisciplina espiritual do corpo e a falta de fidelidade à mensagem do evangelho tornam-se os principais fatores para que o propósito deixado por Deus através do evangelho de Jesus seja cumprido com eficiência.

    Mateus relata que, após a ressurreição, os onze se deslocaram para a Galileia, onde Jesus os reencontrou. Após três anos de caminhada, ensino, disciplina espiritual, entre outros aprendizados, Cristo definiu o foco e o propósito da missão e disciplina que deveriam trilhar.

    Definiu que o propósito da missão, para a qual eles foram escolhidos, era fazer discípulos e discípulas. Eles deveriam concentrar seus esforços e disciplina somente no propósito definido. Ou seja, Cristo deixou evidente, que fazer discípulos e discípulas era o núcleo da missão. Além do propósito bem definido, Jesus estabeleceu o alvo. Alcançar as nações. Definiu a meta.

    Consolidar a missão através do batismo e discipulado. Definiu o resultado.

    Fazer de cada discípulo e discípula um discipulador e uma discipuladora.

    Como promessa, afirmou que no caminho estaria conosco, revestindo-nos de autoridade espiritual. Assim, o cansaço e a luta diária do processo seriam superados.

    Como Catedral Metodista no Rio de Janeiro, nosso maior desafio para 2015 é retomarmos o propósito da missão de Jesus. Para isso, estabelecemos como tema para o ano: “IDE E FAZEI DISCÍPULOS”. Somos desafiados a concentrarmos os nossos esforços somente na missão e no discipulado. Tudo o que oferecermos ao Senhor através dos cultos, ministérios, sociedades, serviços e ações diversas devem focar no propósito de sermos e fazermos discípulos e discípulas para o reino de Deus.

    Nos próximos boletins escreverei sobre a importância de sermos uma comunidade de discípulos e discípulas e o valor da disciplina espiritual no cumprimento do Ide de Jesus.

    Desejo a cada irmão e irmã, discípulo e discípula de pleno de graça e vida.

    Do seu pastor,

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    Rev. Marcello Fraga

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