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    Tagueado com " Alessandra Viegas"

    AMOR “VIA FACE…”

    18 nov 2013   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários
    “Vós sois meus discípulos se fizerdes o que eu vos mando: Amar!” (cf. João 13,35). Este fim de semana de feriadão passei por uma das experiências com a tecnologia mais bonitas dos últimos tempos. Fui acometida por uma amigdalite muito agressiva e pensei por vários momentos em me comportar como uma adolescente que “posta no face” seus sentimentos e pensamentos a despeito das maldades deste mundo. Fui impedida pelo meu superego, mas meu  id meio criança meio adolescente enfim venceu e eu desabafei diante de meus amigos – que depois descobri amigos de coração: “orem por mim – muito do-dói…”(feeling sick com direito a bonequinho com a carinha enjoada!). Para minha surpresa, algo que pensei passaria despercebido, no mundo em que todo mundo tem milhares de coisas pra fazer e com que se preocupar, teve até o presente momento 50 curtidas e 40 comentários – diga-se de passagem o meu mais novo recorde no facebook –, várias orações, preocupações, ligações, prescrições de remédios, desejos de melhoras,… fiquei realmente constrangida – como quem se constrange quando se depara com o amor – sentimento que eu achei sinceramente que estava se tornando líquido, esvaindo-se das minhas mãos, depois de tanto ler e escrever sobre o livro de Zigmunt Bauman.Toda a minha teoria baumaniana caiu por terra de uma única vez! Gente de longe e de perto, do Rio, de São Paulo, de New Jersey – gente que crê em Deus, gente cheia de carinho e de amor – gente do céu encheu meu coração de tanta alegria que fiquei boa antes mesmo de estar completamente restaurada. Como criança que recebe um beijinho da mamãe no do-dói e este passa na hora. Sinceramente eu senti isso. Coisa plenamente provável e possível depois dos 40!

    Somente na presença de gente que aprendeu a ser gente de verdade. Gente que imita Jesus na sua infinita bondade, sorrisos e paz e nem sabe que faz isso. Não precisa ler a Bíblia pra aprender porque a maior lição intrínseca das Sagradas Escrituras já está no coração. Ou então leu tanto – e entendeu de uma vez por todas – que não sabe mais ser insensível ao dolorido. Em uma situação tão bonita em sua simplicidade, aprendemos juntos na escola da vida a lição do bom samaritano. Personagem de Lucas (10, 25-37) a quem persigo e me persegue com sua bondade muda no olhar e nos gestos. Há carinho na vida! Há amor no coração! O mesmo facebook nos mostra que a despeito do egoísmo do presidente das Filipinas, avisado do que ocorreria, milhares de voluntários estão lá agora ajudando gente desconhecida, só porque há coração de carne na humanidade do homem demasiado humano. De verdade. A despeito de eu achar que seria só um desabafo rápido – foram só duas frases –, eu fui alcançada por aquilo que não conseguia visualizar – o maior milagre que Deus fez em mim – acreditar! Então vêm à mente de novo alguém desesperado de amor que respondeu à assertiva de Jesus: “Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê ”– com sorriso no rosto e lágrimas não mais de dor aguda eu digo “Senhor eu creio!” (cf. Marcos 9,20-24).

    E por isso passou! Obrigada!

    No Deus que se fez gente, com coração de carne!

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    Alessandra Viegas, é membro da Catedral Metodista do Rio de Janeiro. Professora na Escola Dominical local. Graduada em Letras – Teologia – Doutorado e  Mestrado em História Comparada e Teologia Bíblica. 


    Vós sois deuses… apenas um desabafo

    8 out 2013   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários

    Vós sois deuses… apenas um desabafo

    Engraçado perceber como o texto bíblico tem a capacidade de ser tão antropológico! Não era para menos, pois é um texto que mostra alguém que era Deus e prefere ser homem, a fim de viver as agruras que este ser – o humano – enfrenta na batalha do dia a dia. Não é nada semelhante à “Cidade dos anjos”, pelo prazer de um beijo, de um toque, de um cheiro, de um corpo – de UM. O Deus que se fez homem tem amor INCLUSIVO – que inclui a mim e a você que me lê, e a todo aquele que dele se aproxima com o carinho de estar junto. Aí está a diferença do anjo que ‘caiu’ pelo amor EXCLUSIVO de uma bela mulher.

    Todos os dias agradeço a Deus porque ele não está preocupado com minha beleza resguardada pelos cosméticos sejam de que empresa forem. Nem se sou boazinha com uns e mazinha com outros. E principalmente se oferto muito ou pouco nos gazofilácios das comunidades de fé que frequento. Não! Eu agradeço porque quero sentir o cheiro das árvores cheias de flores que permeiam a rua Paissandu, porque posso ouvir as maritacas no Parque do Flamengo às sete da manhã, porque posso ver com meus olhos míopes ajudados pelas lentes artificiais coisas boas de se virem: gente, gente, e mais gente.

    O meu escrito hoje é um desabafo. Há uma canseira ao ligar a televisão e ouvir tanta bobagem que se chama “evangelho”. Meu caro apóstolo Paulo, amigão de Barnabé e de Timóteo, já dizia na cara dos gálatas que um ‘outro evangelho’, cheio de obrigações e teologias do sacrifício, da idolatria, do “dê e Deus te devolverá dez vezes mais” estava cercando e enganando aquela gente no século primeiro da nossa era. Vinte séculos se passaram e tem gente que ainda não entendeu que Deus não é um ídolo – que ele não tem que me dar nada se eu me sacrificar. Ele me abençoa com chuva e sol, todos os dias. E isso eu não merecia e por isso agradeço. É graça, é charis, é dom. Meu Deus do céu, será que ninguém lê mais os gálatas?

    A vida de Jesus não é pra ser vista no cinema ou em casa. A vida de Jesus deve ser entendida, percebida e impregnada em todos os poros do meu corpo. Corpo que é da terra e pra ela vai voltar um dia. Corpo que me permite fazer coisas lindas e que é perfeito na sua imperfeição. Aqui e agora. Corpo que é de gente, e não de Deus. E que deve almejar coisas de gente, porque as de deuses ficam nos panteões da vida. A humanidade na humanidade é o que Deus mais aprecia em mim e em você. Não creio que isso seja tão difícil de entender, e não entendo porque quem deveria entender isso não entende – e prefere ser divino – ser deus. Dificultei? Penso que não.

    Nem os deuses gregos gostavam de ser deuses!!! Eles queriam ser humanos e viver a delícia de ter um dia depois do outro e um dia… não ter mais o outro. Ser deus é trabalhoso… é perigoso. Eu quero ser homem na minha feminilidade. Ser humana. E ter vontade de ter vontade de estar no meu lugar. Do jeito que eu sou. Para que o Deus que um dia se aproximou de mim, chegue tão pertinho, que me deixe à vontade com ele… e seja Deus: isso é melhor que mastercard – não tem preço!

     

    No Deus que se fez homem,

    Alessandra Viegas.

     

    O bom samaritano 2

    2 out 2013   //   por admin   //   Colunas  //  2 comentário

    O bom samaritano – é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã! (continuação !)

     Rubem Alves, escritor, pensador, teólogo, psicanalista e professor, tão conhecido da maioria de nós por uma ‘hermenêutica pé no chão’ dos textos bíblicos, releu a parábola de Lucas em 2010, situou-a bem próxima das comunidades eclesiais que gostam de bíblia e a entendem na vida, como dizem Carlos Mesters e Francisco Orofino, e intitulou-a O Bom Samaritano ou O Bom Travesti:

    E perguntaram a Jesus: “Quem é o meu próximo?” E ele lhes contou a seguinte parábola: Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e disseram: “Vá passando a carteira”. O garçom não resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no chão. Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem caído, ele se compadeceu, parou o caro, foi até ele e o consolou com palavras religiosas: “Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você”. Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvição de pecados: “Ego te absolvo…” Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religião. Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho: “Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas serão resolvidos!” O homem gemeu mais uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse, então, “aleluia!” e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido salvar mais uma alma. Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o homem caído, aproximou-se dele e lhe disse: “Isso que lhe aconteceu não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram. Mas agora sua dívida está paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir”. Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma. O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem ferido. Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou: “Quem foi o próximo do homem ferido?”.

     

    A releitura de Rubem Alves provocou burburinhos de ambos os lados – prós e contras. Entretanto, deixou muita gente emudecida. Os gemidos do garçom caído e palavra alguma na boca do travesti gritaram e calaram fundo em muita gente. Na releitura contemporânea, Rubem Alves aponta que os ouvintes – os doutores da lei, sacerdotes e levitas de hoje – olhavam para Jesus e para sua metáfora do amor em uso com ódio. A contragosto destes, o olhar de Jesus lhes era de amor. A obra se tornou aberta no coração do lector in fabula, diria Umberto Eco. A mensagem continuou fiel e não sofreu superinterpretações. O que importa é notar que o texto recebido, refigurado e relido foi ao epicentro do furacão, ao calcanhar de Aquiles da religião (religare?) que se desligou de um Deus de amor, Deus que estava no princípio com o homem, tentando ensinar-lhe a se aceitar e a se amar à medida que aceitasse o outro – o seu próximo – e o totalmente Outro – a divindade que daquele (do homem) se aproximara.

    Veja-se que os candidatos a “próximo” do garçom caído não passam de largo como na parábola original. Rubem Alves os aproxima e intensifica a ação trágica contida na narrativa. Não obstante, cada um que se aproximou, tinha por oposição o coração afastado demais que nem a proximidade ao sofrido os demoveu de suas obrigações eclesiásticas e discursos religiosos perfeitamente formatados e convincentes. Cegos se tornaram em seu entendimento. Tão convencidos estavam que sua con-versão já se esvaíra, já se escorrera o sentimento de humanidade por seus dedos conforme aponta o conceito de liquidez do sociólogo polonês Zigmunt Bauman (tudo na atualidade é líquido, principalmente sentimentos e relacionamentos, escorrendo pelos dedos).

    Aproximação genuína. O bom samaritano e sua releitura no bom travesti travestem-se como tipos do próprio Jesus, o Cristo: em sua vida cotidiana, ele foi criticado por viver onde vivia – era um pobretão – “pode vir alguma coisa boa de Nazaré?”, foi a pergunta de Natanael dirigida não ao nazareno, mas a Filipe, tido como digno de responder. No entanto, não há resposta afirmativa, apenas um convite de ver para crer: “vem e vê”. E antes que Natanael visse, o Jesus joanino (João 1,45-51) e cheio de amor o viu. Se o leitor permite uma inferência, talvez ali Jesus tenha chorado no quarto evangelho pela primeira vez, e não na morte de Lázaro (João 11,35).

    Aproximação vital. Jesus se aproximou de mim e de você. A carta de Paulo aos crentes de Filipos acrescenta ao texto da epístola um hino cristão provavelmente muito conhecido nas primeiras comunidades e encoraja os destinatários a terem o mesmo sentimento que houve em Jesus – acrescentamos: no samaritano e no travesti das parábolas. O sentimento de ser gente. De ter sentimento. O hino, conhecido como uma apresentação da kenosis (esvaziamento) da divindade, assevera que aquele que era Deus em toda a sua divindade, tornou-se homem humano. Porque quis, simplesmente (Fp 2,5-11):

    De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o SENHOR, para glória de Deus Pai.

    Jesus entendeu perfeitamente o que era ser homem. Também assim o samaritano e o travesti. Falamos de três homens com H que, em toda a sua coragem e força viril, permitiram-se à doçura de tocar o intocado, abraçar o não-abraçado, amar o odiado. Em primeiro lugar, isso transformou-lhes a vida numa revolução do amor sem precedentes; em segundo, condicionou-lhes à incondicionalidade de amar para sempre; em último lugar e não por isso menos importante, interessou-lhes a amar cada vez mais o desinteressante, dando, recebendo e retribuindo o que podiam – satisfazendo-se em pleno gozo de saber cada um a dor e a delícia de serem quem eram.

     

    No Deus que se fez homem,

    Alessandra Viegas.

    O bom samaritano

    15 ago 2013   //   por admin   //   Colunas  //  2 comentário

    O bom samaritano – é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã

    25 E eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o, e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? 26 E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês? 27 E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo. 28 E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso, e viverás. 29 Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo? 30 E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. 31 E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. 32 E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo. 33 Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; 34 E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; 35 E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar. 36 Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? 37 E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira.

     

    O texto de Lucas 10,25-37 nos apresenta um questionamento central dos estudos de antropologia e sociologia que têm como objeto de estudo a antiguidade à contemporaneidade – a quem devo considerar meu próximo? É bem verdade que todos nós temos (e queremos ou não) um próximo – alguém que permitimos se aproxime de nós. O interessante é perceber que, a partir do verso 29 do texto de Lucas 10, o próprio Jesus, para falar de proximidade, utiliza um mecanismo literário que possui a mesma intencionalidade – aproximar – e que o autor lucano conhece bem na cultura grega: a parábola.

    Etimologicamente, parábola (parabolé) significa aproximação. Mas a que aproximação se referiria especificamente? À aproximação do que se ouve ou se lê e que, por si só, exige do ouvinte-leitor um exercício hermenêutico, uma interpretação – esta é a deixa do verso 26, posta na boca de Jesus pelo autor do terceiro evangelho para mexer com os brios do seu interlocutor:

    25 E eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o, e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? 26 E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês?

     

    “Como lês?” é a chave de leitura para o ensino do amor humanizador pregado e vivido por Jesus e que não é entendido por aqueles que já se deificaram a si mesmos como o doutor da lei apresentado no texto: ele estava tão próximo da lei e, paradoxalmente, tão afastado daquilo que ela mesma promulgava – abrir os olhos, os ouvidos e o coração para quem da lei mais necessitava – aqueles com quem ninguém queria se responsabilizar: órfãos, viúvas, pobres, estrangeiros, doentes, diferentes.  Por estar petrificado por sua interpretação própria da lei e não conseguir enxergar o sentido real desta e sua proposta, nosso doutor da lei precisa de uma parábola – algo que lhe forneça uma espécie de metáfora que lhe faça entender de uma vez por todas o que é ser humano e como desfrutar de nosso maior privilégio – amar o próximo.

    Lucas constrói a parábola. E a grande questão é que o Jesus Cristo de Lucas é o mestre que gosta de cabeças pensantes e que cheguem às suas próprias conclusões, a partir de sua leitura de mundo, mediada por uma leitura de nós mesmos, de nossos valores e desejos. O interlocutor de Jesus sabia o que estava escrito na lei, e de cor: “E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo”.  E Jesus o interpela imediatamente: “E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso, e viverás”.

    Aproximar-se de algo que não queremos pode ser perigoso porque comporta a possibilidade de nos tirar de nossa zona de conforto. Assim se deu com nosso querido personagem da parábola, que identifica o leitor dos primeiros séculos da era cristã ou do século XXI: nós! Em resposta a Jesus, como em um repente nordestino, mais do que depressa o doutor da lei se justifica e tenta vencer o mote com a pergunta que não quer calar dentro de sua alma cortada pela palavra da lei que lhe obriga a ser gente, a amar: “E quem é o meu próximo?”. O Jesus tão grego de Lucas percebe que o homem precisa de uma metáfora, de uma estória moralizante como uma fábula de Esopo, porque não consegue lidar com a realidade que o cerca, tampouco enxergar o óbvio: nosso amigo tem questões existenciais que lhe impedem de amar livremente, tanto o próximo – que tem problema para identificar quem é – quanto a si mesmo, talvez.

    Como expor um fato a alguém que não consegue lidar com obviedades, seja porque estas lhe ferem de algum modo, seja porque seu olhar está velado e a ele é necessária a re-velação (o desvelar, o o trazer à tona o escondido)? Dá-se a parábola. Jesus tenta, por compaixão àquele homem que entendia de tantos textos da Torah, explicar-lhe como bom contador de estórias que era, para que servem de fato todos os ensinamentos aprendidos (apreendidos?) até então nas sinagogas da vida. É preciso aprender com o diferente, com o nunca antes imaginado, com o outro, para que eu possa saber quem eu sou. Nisto antropólogos e teólogos não discutem: minha identidade só é descoberta e aceita plenamente quando consigo perfazer o mesmo com aquele que é alteridade para mim. Neste sentido, a parábola do samaritano se encaixa perfeitamente!

    A narrativa já se inicia com um nó problemático desencadeador logo após sua introdução: “Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto” – o homem, provavelmente alguém que fora a Jerusalém adorar no templo e/ou fazer ali suas vendas de artigos religiosos, por isso tinha o que ser roubado, foi brutalmente atacado, tanto que ficou ‘meio morto’.  A narrativa prossegue.

    A tensão narrativa vai-se intensificando com a entrada de dois personagens bem conhecidos do ouvinte da parábola e com os quais ele se identificaria e deles já teria de antemão opinião formada – certamente o sacerdote ou o levita, movidos pelo amor que a lei lhes ensinara e eles mesmos pregavam, ajudariam aquele homem caído! A despeito do esperado, isto não aconteceu. E aquilo que seria certo, começa a tornar-se duvidoso: “…descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo”. Não se sabe por qual motivo estes homens passam de largo. Isso não deveria ser assim. Desperta-se a atenção do leitor.

    O ápice da tensão se dá para o doutor da lei e para o ouvinte-leitor da comunidade judaica do primeiro século: “…um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão…”. Como um impuro poderia ser compassivo? No mínimo a estratégia lucana de um Jesus impactante causou ojeriza neste momento da narrativa. O último indivíduo a fazer o bem a alguém seria um samaritano, se a estória se conta a um público judeu, o que é o caso, com toda a certeza. De quem ninguém esperava, acrescentam-se ainda em detalhes cada atitude compassiva, em uma forma de gradação ascendente, numa escolha bastante cuidadosa e criteriosa das ações verbais:

    E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar.

     

    O samaritano se aproximou. Daí, partiram todas as outras atitudes que tivera com o homem violentado e ultrajado. A parábola foi feita metaparábola na engenhosidade do texto lucano, obra de um profundo conhecedor da retórica grega e de onde esta pode levar o ouvinte-leitor. E o levou, guiado pela reação do doutor da lei, atônito e talvez arrependido da pergunta inicial que fizera a Jesus para tentar ganhar o repente. O Jesus de Lucas questiona incisivamente: “Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?” E aquele que não poderia nem proferir a palavra ‘samaritano’, pois se lhe tornaria a boca impura, foi obrigado a reconhecer naquele que ele odiava o exemplo de amor: “O que usou de misericórdia para com ele”. Percurso do reconhecimento dificílimo e doloroso deve ter sido este. E atento para este reconhecimento aristotélico da tragédia depois de tantas peripécias e para esta dor que cura como mertiolate de antigamente, Jesus ganha a disputa e diz: “Vai, e faze da mesma maneira”.

    É importante notar que este último verso do texto é uma espécie de refrão na narrativa – o verbo ‘fazer’ no imperativo afirmativo encontra-se em Lucas 10,28: “Faze isto e viverás” e 10,37: “…faze da mesma maneira” e estilisticamente compõe uma moldura da parábola, pois fecha e abre a contação da estória do bom samaritano. Trocando em miúdos: amar não é teoria contida na lei farisaica, para ser estudada e decorada; amar é ter atitude pró-ativa, fazer, é colocar a mão na massa e ter parte com ela – este é o sentido do verbo grego utilizado no texto (poieo – o mesmo do campo semântico de poietes e poiesis). Não é a parábola lucana atualíssima para tratarmos de modo coerente como temos agido e se temos realmente amado as pessoas como se não houvesse amanhã?

     

    No amor do Deus que se fez gente,

    Alessandra Viegas.

    Deus não é cristão

    24 jul 2013   //   por admin   //   Colunas  //  2 comentário

    ‘Deus não é cristão’ (Desmond Tutu)

    “Vá com Deus!” – será que conseguimos nos lembrar de quantas vezes já dissemos esta frase tão
    auspiciosa aos nossos filhos, amigos, vizinhos ou a alguém que acabamos de conhecer no trem ou no ônibus
    quando deles nos despedimos? ‘Deus’ é tão natural em nossos pequenos agradecimentos – “graças a Deus!” –,
    desesperos – “ai, meu Deus!” e desejos ainda não cumpridos para daqui a pouco – “se Deus quiser!…”. Ele é
    substantivo próprio na morfologia e sujeito na sintaxe destas exclamações que fazem parte de nosso viver
    cotidiano, mas que na maioria das vezes não passam de um modo de falar de nosso eu situado1
    na sociedade
    em que vivemos, um costume herdado de família, como pedir a bênção aos mais velhos – este sim, coisa rara
    nos dias de hoje, diga-se de passagem.
    No entanto, e ironicamente, Deus como sujeito além da função sintática está bastante longe do mundo
    que se diz cristão na contemporaneidade. A proposta cristã de um Deus que se humanizou para que nós
    mesmos nos tornássemos humanos esvaiu-se e deu lugar a uma contraproposta que deificou o homem e o
    tornou incapaz de se incomodar com a dor do outro. É neste vácuo de sensibilidade que nos ‘emocionamos’ com
    os prêmios Nobel da Paz – pessoas que passam suas vidas amando as outras e que se destacam na multidão de
    nós que não amamos… descompasso e vergonha deveríamos sentir: afinal de contas, ser amante e pacificador é
    regra para ser gente, para viver em comunidade, é para todos, e não para alguns como se fossem modelos a se
    admirar e não a alcançar.
    Entre estes modelos, um se destaca: Desmond Tutu, arcebispo da igreja Anglicana e prêmio Nobel da
    Paz em 1984, por ter passado grande parte de sua vida lutando a favor da igualdade na África do Sul.
    Notoriamente cristão, Tutu, no livro Deus não é cristão e outras provocações2
    , teve seus sermões compilados e
    seu exemplo de vida narrado pelo jornalista John Allen, também sul-africano, com a máxima de que Deus não é
    e nem pode ser monopólio da fé cristã, mas que está presente no gesto de qualquer um que se deixa humanizar
    por ele (por Deus)
    3
    , independente da religião que siga – ou que não siga. Haverá algo mais próximo do exemplo
    de Cristo do que ser humano – ser gente! – em plenitude e por isso mesmo tão provocador…? Creio que
    precisamos pensar quão humanos quanto Jesus temos sido… Um bom começo seria a leitura de Filipenses 2,5-9
    e da parábola do bom samaritano, em Lucas 10,25-37 para conversarmos…
    No Amor do Deus que se fez gente.

    Alessandra Viegas

    Quem cala, consente

    30 abr 2013   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários

    Quem cala, consente.

    Temos visto uma série de acontecimentos estarrecedores ao longo destas últimas semanas. Acontecimentos que nos apontam que não estamos seguros apesar de termos uma Secretaria de segurança que deveria zelar por toda a população. O caso da maratona de Boston, longe de nós geograficamente e, tão perto de nós pela mídia e pela internet, mostrou mais uma vez que os Estados Unidos foram feridos em seu orgulho de país seguro para se viver. Pertinho de nós, outrossim, está o caso da dentista que, por ter somente trinta reais em sua conta bancária, foi assassinada cruel e indignamente. Alguém se lembra dos trinta talentos de prata que entregaram Jesus à morte? Parece-me que nada mudou… a antropologia histórica demonstra o que o senso comum diz na boca de nossos sábios de plantão: ‘o homem é o mesmo (ao longo do tempo), só muda o endereço’.

    “Que é a vossa vida?” é a pergunta de Jesus àqueles que possuem ouvidos para ouvir (e não é retórica!), entretanto, certamente, não possuem boca para falar. Talvez essa seja a pergunta que não quer calar àqueles que verdadeiramente possuem o compromisso de amar a Deus e amar ao próximo como a si mesmos: é preciso falar e fazer alguma coisa. Na Escola Dominical, ouvi uma senhora tão incomodada com o caso tão atroz de São Paulo, dizer: “parece que foi com minha família… estou indignada!”. Indignação é um bom começo. Mas como foi dito na mensagem ontem pela manhã, esta indignação precisa levar ao perdão dos criminosos – como é paradoxal o evangelho de Cristo!!

    Separemos bem os fatos – ‘uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa’. Nossa indignação precisa atacar o problema, a coisa em si, falando em termos heideggerianos. Violência sempre houve e sempre haverá. Jerusalém e Samaria que o digam! É só ler boa parte do Antigo e do Novo Testamentos que veremos atos violentos por toda parte. Mas existem meios de reduzi-los, fazendo uma pequena revolução a cada dia, um trabalho de formiguinhas que resulte em uma sociedade melhor: viver o Evangelho de Jesus visitando os órfãos e as viúvas, os presos, os abrigos dos que estão tentando se recuperar dos vícios; fazendo um trabalho voluntário em alguma instituição – temos tantas! No resumo da ópera, o amor precisa suplantar nossa falta de tempo para tentarmos fazer alguma coisa e falar também, se necessário for. Se a própria atitude já não falar por si. Pois quem cala, consente.

    Heidegger, junto à coisa em si, aponta o fenômeno – o que poderíamos dizer que é o reflexo ou o resultado daquela. Eis os rapazes e o ato brutal que cometeram. Três foram detidos e confessaram o crime e um está foragido. Os que confessaram receberão a punição da lei – assim esperamos. Mas e se confessarem o ato com arrependimento, e se por acaso (ou não!), estivéssemos lá neste exato momento, o que faríamos?  Lembro-me do moto de um movimento que ficou em voga nos anos 1990, nas igrejas cristãs evangélicas dos Estados Unidos – WWJD (What would Jesus do?) –, baseando no livro homônimo de Charles Sheldon, de 1896: Em seus passos, o que faria Jesus? (em português, Ed. Mundo Cristão, 2010). Recoloco a pergunta em que o movimento e o livro se baseiam: Em meu e em seu lugar nesta situação, o que faria Jesus? É preciso tratar também o fenômeno. Fica a deixa (pela tônica da mensagem no culto de ontem): creio que só se trataria o fenômeno com perdão. Suplantando a indignação inicial, deixando-a como incentivo para atacar a coisa em si, e não se calando diante de um Deus que, cremos, é grande em misericórdia, roguemos-lhe pelo tratamento do fenômeno: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem…”. Lembremo-nos de que quem cala, consente.

     

    Alessandra Viegas

    Ninguém é perfeito

    22 abr 2013   //   por admin   //   Colunas  //  2 comentário

    Certamente eu e você já dissemos esta frase dezenas de vezes para explicar alguma bobagem que fizemos ou, então, quando deixamos de praticar um ato que faria bem a alguém e, se prestarmos atenção direitinho, isto nos deixou chateados ou frustrados no fim das contas.

    Depois do “não tem nada a ver”, “ninguém é perfeito” é a frase feita do momento para nos escorarmos e nos desculparmos em nossa falta de tempo para estar com nossos familiares e amigos, em nossas ausências aos cultos e à escola dominical, em nossos momentos de oração e leitura da bíblia, e em nosso cuidado até conosco mesmos… há quanto tempo você não vai caminhar no Aterro com seu grupo de amigos ou para ficar a sós com Deus e ali orar, sentindo a brisa gostosa do mar e ouvindo as maritacas cantarem na copa das árvores?… vai me responder ‘ninguém é perfeito’?

    Bem, vamos à literatura grega e pensemos primeiro sobre o ‘ninguém’.

    Quando Ulisses se desvencilhou do ciclope Polifemo na Odisseia de Homero, para salvar a sua vida e a de seus companheiros, ele usou de astúcia e disse a Polifemo que seu nome era ‘Ninguém’. Assim, quando Ulisses furou o único olho do ciclope, este saiu gritando ‘Ninguém me feriu! Ninguém me feriu!’. O que quero dizer com isso? Na mente astuciosa de Ulisses, Ninguém é alguém. Soou como um nome. E Polifemo acreditou. Dito isso, que tal pensar novamente na frase: “Ninguém é perfeito”?

    Por outro lado, vamos à Bíblia e pensemos no ‘perfeito’.

    Em Mateus 5,48, Jesus nos fala: ‘Sede perfeitos como perfeito é vosso Pai que está nos céus’. Se eu e você somos imagem e semelhança de Deus, e Ele é nosso Pai, como está escrito, e se está escrito eu acredito – e você também, eu presumo –, qual é a dificuldade em pelo menos tentarmos ser perfeitos, segundo esta bela argumentação de Jesus? O contexto do texto de Mateus 5,44-48 é de amor. Amar, abençoar e orar com e por alguém necessitado, mesmo que seja por quem não simpatize tanto conosco. A partir daí vem a perfeição. Será que é tão difícil ter tempo para essas três coisinhas? Nem tanto, não é mesmo? Aproveite sua hora de folga nesta semana e faça isso. Ame. Abençoe. Ore. Converse com gente. Converse com Deus. Quer uma dica? Vá caminhar no Aterro! Quem sabe você encontra alguns ‘ninguéns’ tentando ser perfeitos lá, inclusive eu?

    Deus nos abençoe em nossa caminhada!

    Alessandra Viegas

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