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    Os caçadores do livro perdido!

    14 out 2015   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários

    Há alguns anos atrás, ouvi a mensagem de um pastor amigo e muito querido que nunca mais esqueci. Estávamos no mês de outubro e comemorávamos a Reforma Protestante, tema das aulas de História na escola, tema de debates desde o momento em que começou a ser implantada na Europa essa reforma da igreja no intuito de combater aquilo em que se tinha tornado a palavra de Deus: “era preciso pagar pelos pecados”, o que tem o bonito (ou feio!) nome de indulgências.

    Algumas igrejas do século XVI tinham uma espécie de “quadro”em que se colocavam os preços de cada pecado e como pagá-los… A igreja apresentada a nós pelo historiador que escreve o livro de Atos dos Apóstolos há muito não existia…: aquela em que todo mundo tinha tudo em comum e se ajudava mutuamente. Isso não passava de um sonho distante. Aliás, no século XVI não se tinha a Bíblia na língua própria do lugar, apenas em latim. E quem não sabia latim, não entendia o que ouvia, muito menos lia. E assim caminhou a humanidade.

    Aquele pastor querido foi até o texto de 2 Reis 22, sobre o que fez Josias, um dos reis-modelo na história de Israel: incomodado com o aspecto da Casa de Deus, o templo, pediu ao escrivão, chamado Safã, para que dissesse ao sumo sacerdote Hilquias que abrisse o cofre (que ficava no templo), contasse o dinheiro e contratasse gente da melhor qualidade na época para reformar o templo e reparar os estragos causados até então. Hilquias contou, deu o dinheiro na mão dos mestres de obra e o texto traz um detalhe interessantíssimo: “Porém não se pediu conta do dinheiro que se lhes entregara nas mãos, porquanto procediam com fidelidade” (2 Reis 22,7).

    Fidelidade.

    Mas a história não terminou aí: quando Hilquias foi abrir o cofre, no meio do dinheiro, o que ele achou: o livro da Lei – o texto sagrado da época, que os estudiosos dizem ser os capítulos 12 a 26 do Deuteronômio, texto importantíssimo sobre justiça social e aplicação de leis para que a economia do povo ficasse equilibrada, sem gente rica demais, e sem gente pobre demais. Foi Safã quem leu o texto (e que, como era escrivão, deveria ler muito bem) e foi correndo contar tudo que acontecera ao rei Josias. Resultado: Safã leu o texto na frente de Josias, e o rei ficou pasmo com todos os erros que estavam acontecendo, pois o texto sagrado tinha sumido, ninguém nunca mais ouviu falar dele, e a “coisa” da justiça social não deveria estar indo muito bem.

    Josias, ao ouvir, “rasgou as vestes”: isso era um modo de representar o arrependimento.

    Mas ele não parou por aí (2 Reis 23). Reuniu todo mundo, gente rica, gente pobre, sacerdotes, profetas, trabalhadores, e leu as palavras do texto do livro da Lei na frente dessa gente toda.

    Colocou-se diante do povo, pediu que eles voltassem atrás nos seus erros, assim como ele, Josias, faria a partir de agora. E o texto bíblico diz: “fizeram aliança com Deus, todo o povo!”.

    Depois disso, vão sendo contadas todas as atitudes justas e igualitárias de Josias e, antes de falar da sua morte, vem o elogio do narrador: “E antes dele não houve rei semelhante, que se convertesse ao Senhor com todo o seu coração, com toda a sua alma e com todas as suas forças, conforme toda a lei de Moisés; e depois dele nunca se levantou outro tal” (2 Reis 23,25).

    Justiça.

    O que isso tem a ver com a Reforma Protestante?

    A memória não me falha e lembro direitinho o que meu pastor amigo disse naquele dia na mensagem: o livro da Lei – o texto sagrado – estava perdido dentro da casa de Deus. Ele estava sumido, enfiado no cofre no meio do dinheiro do povo, que deveria voltar para o povo como beneficio em cuidado, em zelo, em obras e em justiça social. Esse é o ensinamento que Josias ouviu do texto do Deuteronômio.

    Em 31 de outubro de 1517, um monge chamado Martinho Lutero percebeu que o livro sagrado estava de novo perdido dentro da casa de Deus. Tinha sumido. Tinha sido engolido pelo dinheiro suado do povo que pecava e que pagava por cada um de seus pecados. Dinheiro que iria se multiplicar sempre, pois eu e você e aquele povo nunca deixaremos de ser pecadores. Nem um diazinho sequer. Lutero leu no Novo Testamento, em Romanos 1,16 que a justiça de Deus se manifesta pela fé, e que dessa fé o justo viverá, verdade que também consta lá atrás, no Antigo Testamento, em Habacuque 2,4. E Lutero percebeu que nossos pecados são perdoados quando os confessamos e neste momento exato da confissão nos tornamos justos diante de Deus, por meio da fé que temos nele. Fé que nos move a dizer de verdade quem somos. Fé que nos faz acreditar que Deus nos ama e nos perdoa mesmo sendo quem somos!

    Quase quinhentos anos se passaram desde que Lutero afixou na igreja de Wittenberg, na Alemanha, noventa e cinco teses sobre esse “pagar pelos pecados” e eu estou aqui escrevendo uma coluna sobre a Reforma Protestante. Confesso que escrevo com uma pontinha de tristeza que vai se transformado numa mancha enorme que nenhum mata-borrão possa dar jeito. A igreja que protestou hoje não protesta mais! Pelo menos sua grande maioria. O povo que pagou pelos pecados no passado, inocente e sem saber da justiça pela fé, hoje paga para receber bênçãos que não precisam de pagamento, mas só de justiça, só de trabalho, só de fé.

    Já li vários artigos e colunas sobre uma “Reforma da Reforma”, um movimento que precisa acontecer nas igrejas ditas reformadas, para se voltar bem lá atrás, de novo à igreja de Atos dos Apóstolos, de novo ao princípio em que não havia separação. Os conflitos aconteciam, mas se resolviam com a autoridade de gente que tinha, acima de tudo, amor ao ensino da palavra de Deus, amor à justiça, amor a Deus, amor ao próximo. Amor ao livro. Não-amor ao cofre.

    Busca.

    Precisamos reencontrar o livro, perdido, sumido. Ouvi-lo. Lê-lo. Entendê-lo. Fazê-lo acontecer. Fazê-lo mudar nossas práticas nada reformadas, tampouco reformistas. Quem sabe ele – o livro sagrado – está enfiado no meio do dinheiro do cofre?… Que o rei Josias e o Deus que ele tanto amava nos convoquem para sermos os caçadores do livro perdido. Quem se habilita?

    No Deus a quem eu permito reformar minha vida,

    _ _

    Alessandra Viegas, membro da Catedral, é professora, Coordenadora de Ensino e Capacitação e professora da Escola Dominical.

    Um lugar pra descansar… ainda há esperança!

    30 mar 2015   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários

    Esta semana estava conversando com uma amiga muito querida e, ao nos despedirmos, como era meu término de horário de trabalho e o dela também, desejei que seu retorno fosse tranquilo e que ela conseguisse, na condução até em casa, um lugar para sentar. Eu sabia que era horário de rush e que meu desejo era, se não difícil, quase impossível. Mas mesmo assim, desejei e falei. Ela na hora me disse que sempre pede a Deus que, na sexta-feira, consiga fazer isso, pois o cansaço da semana toda parece se acumular naquele dia que antecede o fim de semana tão desejado por milhares de trabalhadores em todo o mundo! Mas ainda era quarta-feira…

    Qual não foi minha surpresa quando, no dia seguinte, minha amiga me fez uma visita rápida na hora do almoço e, chorando de alegria numa presença tão bonita de Deus, contou-me que tinha conseguido sentar, pois um lugar estava disponível. Sua emoção encheu meu coração de alegria, pois meu desejo fora atendido, mas também de uma esperança de que ainda existe muita gente que se parece tanto com Jesus. Aquela flor – os que me conhecem, sabem que chamo assim as pessoas que me são queridas – estava ali emocionada não porque conseguira um carro do ano, uma casa nova, um casamento feliz, um emprego em que teria o dobro de salário.

    Aquela flor do jardim, amiga de quem passei a ter mais respeito e mais orgulho de ser amiga, conseguira sentar no trem às cinco e meia da tarde de uma quarta-feira e voltar pra casa com menos dor no joelho e aliviada um pouco do cansaço de um dia de trabalho!

    Eu me pus a pensar que Jesus não tinha onde reclinar a cabeça… que sempre andava a pé entre a Judeia e a Galileia encontrando gente simples, gente com problemas, gente acabrunhada, mas sempre tinha um desejo bom e uma palavra boa para todos. Mesmo andando no sol quente do meio-dia em plena Samaria e cheio de sede, parou ao lado de um poço (mas não tinha um copinho pra pegar água!), conversou com uma mulher com quem ninguém queria conversar e curou a sua alma, elevou sua autoestima e deu vez e voz àquela que não falava com ninguém. E aproveitando que estamos na semana do Domingo de Ramos, acabo de me dar conta que aquele domingo foi o único dia em que Jesus não andou a pé: ele montou num jumento e teve um lugar pra sentar enquanto se locomovia pra entrar em Jerusalém, o lugar da paz (Yerushalaim) – assim como minha amiga teve um lugar pra sentar e pode ir pra sua casa, seu lugar de paz e descansar pra começar tudo de novo no dia seguinte.

    A esperança a que me refiro no título, querido leitor, é o profundo sentimento que foi mais uma vez alimentado depois desta experiência nesta semana. Esperança em um Jesus que está e é tão próximo de nós se aprendermos a ler sua vida nos evangelhos com um sorriso no rosto e uma vontade boa no coração de sermos mais humanos – tão humanos quanto ele foi!

    Esperança em uma gente que agradece e se emociona por aquilo que pode parecer tão pouco, mas que traz um sentimento e uma consciência desse Jesus tão próximo e de um Deus que é pai e cuida. Não que ele não cuidasse dos outros que foram em pé no trem, mas pelo momento especial que proporcionou à minha amiga querida. Quanta gente apertava Jesus no caminho da casa de Jairo, quando ele se direcionava pra lá a fim de ir curar sua filhinha? E aquela mulher dentre a multidão o tocou com tamanha fé… o resto da história você já sabe…

    Que este Jesus que andava a pé e se compadecia do sofrido esteja hoje em nosso coração.

    E que o sintamos tão pertinho que possamos louvá-lo, esteja a condução cheia ou vazia, estejamos nós em pé ou sentados, em um carro de luxo ou no lombo de um jumento.

    No Deus eterno que se fez carne em Jesus só porque me amou e te amou.

    _ _

    Alessandra Viegas, membro da Catedral, é professora, Coordenadora de Ensino e Capacitação e professora da Escola Dominical.

    Natal – é tempo!

    26 dez 2014   //   por admin   //   Colunas  //  1 comentário

    Natal – é tempo!

    (Mateus 1,18–2,12; Lucas 1,26-38)

     

    1. Tempo de Deus fazer milagres (Mt 1,18) Maria fica grávida sem ter estado com José!

    2. Tempo de ter coragem para receber o milagre e o desafio de Deus (Lc 1,26-38) Maria recebe o anúncio de que será mãe e sabe exatamente todas as implicações que isto acarretaria, não só para ela, mas também para José e para suas famílias.

    3. Tempo de preparo (Lc 1,46-56) Maria vai até a casa de Isabel, que estava grávida depois de uma vida estéril… lá Maria cuida de Isabel e se prepara para ser mãe, como acontece com toda mulher. Deus cuida de todos os detalhes para encorajar

    Maria em sua missão!

    4. Tempo de ouvir a Deus mesmo que seja loucura – e obedecer-Lhe (Mt 1,19-25) José, em um sonho, ouve que precisa ficar com Maria, mesmo contrariado, e resolve obedecer à voz do anjo que lhe falara. Casa-se com Maria e, mesmo sendo seu marido, não a toca até que Jesus nasça!

    5. Tempo de deixar os preconceitos (Mt 1,24) Ainda que José pensasse inicialmente que Maria estava grávida de outro homem e que ele fora traído, fez como o anjo do Senhor lhe dissera e casou-se com ela!

    6. Tempo de proclamação e confirmação de promessas (Mt 2,1-6) Os três magos vêm do Oriente, após ouvir que era nascido o Rei dos judeus, a confirmação da profecia de Miqueias 5,2: E tu, Belém, terra de Judá… de ti sairá o guia que há de apascentar o meu povo, Israel.

    7. Tempo de discernimento (Mt 2,7-12) Ainda que Herodes pedisse aos magos que voltassem e lhe dissessem onde estava Jesus, eles ouviram em sonho que não deveriam fazer isso, discerniram que era Deus lhes falando e retornaram à sua terra por outro caminho.

    8. Tempo de se deixar ser guiado por Deus e se alegrar com o resultado (Mt 2,9-10) Os três magos, que certamente entendiam de astronomia e astrologia, deixaram-se ser guiados por uma estrala, a mesma que os alegrou quando chegaram ao seu destino – ver Jesus!

    9. Tempo de render adoração a Jesus com nossas vidas! (Mt 2,11) Os magos entregaram o que tinham de melhor e assim adoraram a Jesus com presentes – ouro, incenso e mirra, respectivamente símbolos que falam que nasceu nosso rei, sacerdote e profeta!

    Feliz Natal!! E que o Deus que se fez gente nos traga desafios e milagres!!!

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    Alessandra Viegas, membro da Catedral, é professora, Coordenadora de Ensino e Capacitação e professora da Escola Dominical.

    Então é Natal!!

    12 dez 2014   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários

    O bebezinho está lá

    Não teve direito a nascer em um lugar limpinho

    Nem deitou em um bercinho

    Tampouco ganhou um enxoval…

    E foi Natal!

    O presépio fica em um estábulo,

    Jesus repousa numa manjedoura

    E está envolto em muitos panos – proteção de Maria!

    E a estrela brilhou de noite para um novo dia!

    Um novo dia pra mim e pra você

    No qual entendamos que não é por merecer

    Que o bebezinho está lá

    Você me pergunta: Por que motivo é então?

    Porque Deus em Seu coração

    Resolveu AMAR!

    O bebezinho cresceu,

    Numa cruz padeceu

    Pra que hoje seja Natal!

    Não há amor igual!

    O bebezinho não estará mais lá

    Se você o deixar entrar

    Nas suas limitações

    Frustrações

    Decepções

    Aconchegar-se-á aí mesmo

    No recôndito mais profundo

    E você poderá sentir

    O que é o maior amor do mundo!

    Então será Natal!

    _ _

    Alessandra Viegas, membro da Catedral, é professora, Coordenadora de Ensino e Capacitação e professora da Escola Dominical.

    A “não-crise” dos nossos dias…

    28 out 2014   //   por admin   //   Colunas  //  2 comentário

    Nos anos noventa, exatamente em 1992, o Rev. Caio Fábio lançou um livro que ficou bastante conhecido: A Crise de Ser e de Ter. Quase todo mundo que frequentava alguma comunidade de fé tinha lido e falava sobre o assunto. Ouvi várias mensagens sobre o tema, que pipocava nas rodas de conversa da faculdade, já misturado com o consumismo e a globalização, e a partir de teóricos não religiosos, mas filósofos, sociólogos, antropólogos e historiadores. O mote era falado todo o tempo – estamos em crise: tratamos as pessoas como coisas e as coisas como pessoas, isso precisa ser revertido! Necessariamente, o livro de Caio Fábio e os escritos que circulavam entre a juventude e a intelectualidade da época respondiam aos anseios de tentar mudar aquela situação.

    A questão é que a situação, para nossa tristeza, não mudou. A crise acabou e vivemos um mundo de zumbis. Explico-me: segundo a cultura grega, “krisis” ou crise, é o que nos torna humanos, é o que nos faz lutar para viver, é o que nos impulsiona, é o que nos faz perguntar à vida e esperar dela respostas até a próxima pergunta. O hipócrita (hypokrités) é aquele que está abaixo (hypo) da crise (krités), isto é, é o ator de teatro, que usa máscaras, não se mostra verdadeiramente, não se expõe à crise, à vida. Se não existe crise, não existe vida humana.

    Tornamo-nos qualquer coisa que existe, mas não sabemos mais o que é viver. Infelizmente.

    Enquanto havia a crise de ser e de ter, ficávamos atentos para tratar as pessoas – o ser – como pessoas e as coisas – o ter – como coisas. Conseguíamos ver a diferença. Não éramos como aquele cego em quem Jesus tocou, mas que continuou vendo “homens como árvores” (Marcos 8,22-26). Enquanto havia a crise, aceitavam-se as diferenças entre as pessoas, os relacionamentos se mantinham e os aparelhos eram levados ao conserto. A crise movia a mola da vida e podíamos ver o por do sol junto aos amigos sem ter que saber o que eles tinham a oferecer a nós.

    Nas igrejas, as pessoas deixaram de amar a Deus e cantar louvores por aquilo que Ele é – o Maravilhoso Conselheiro, o Deus Forte, o Pai da Eternidade, o Príncipe da Paz (Isaías 9,6).

    Hoje se “ama” a Deus pelo carro zero, pela casa na praia, pela conta bancária, pelas cem vezes mais que Ele vai dar… o relacionamento com Deus virou barganha e idolatria. O mesmo ocorre com o tipo de “amizade” ou sei lá o quê que foi criado – não se “curte” mais o outro, “curte-se” o que o outro tem a oferecer: vantagens, conhecimento, dinheiro… definitivamente isso nem passa perto do que é amizade. Às vezes eu mesma me canso de um monte de gente que nem sabe meu nome direito, tampouco pergunta se estou bem, mas sabe os dois doutorados que eu curso e acha que sou uma consultoria ambulante pra dar todas as respostas de que necessitem.

    Jesus percebeu que aquele cego precisava de outro toque para enxergar gente como gente e árvore como árvore. Teve compaixão dele e o tocou novamente. Ainda bem que o cego permitiu e passou a ver distintamente cada coisa. Ali ele passou a viver a crise e entendeu o que é a vida. Meu pedido hoje, caro leitor, é que possamos voltar à crise e entendamos que a vida não é uma sucessão de satisfações de tudo que queremos ter, mas é a satisfação interior de tudo que podemos ser.

    Que o Deus que é sendo nos abençoe!

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    Alessandra Viegas, membro da Catedral, é professora, Coordenadora de Ensino e Capacitação e professora da Escola Dominical.

    Carpe diem!

    8 out 2014   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários

    Essa semana fui ao cinema participar pelo menos uma vez do Festival do Rio e, como de costume, chorei bicas durante a passagem dos créditos e das pessoas na minha frente que não têm o menor interesse em lê-los. Quase todas as vezes que me exponho à sétima arte, meu coração de manteiga derretida entra em ação, e já aprendi a conviver com a cara de espanto das pessoas na penumbra das salas de cinema.

    O interessante é que alguma coisa acontece no meu coração, não no cruzamento mais famoso de São Paulo, cenário há quase dois meses de um grave problema brasileiro – a má distribuição de renda unida à falta de moradia nos grandes centros urbanos. Mas dessa vez, o filme a que assisti me mostrou que tudo à nossa volta é pedra que clama que devemos fazer da nossa vida alguma coisa que demonstre amor a essa gente tão sedenta de justiça e paz no terceiro milênio.

    O filme tratava de uma fotógrafa impulsionada pelo desejo de, através de suas fotos, denunciar a maldade, a ganância e a intolerância crescente e latente ao redor do mundo. O sentimento dela por justiça feita àqueles a quem não conhecia, mas amava como gente, era tão belo e profundo, que deixava sua família em suspenso a fim de cumprir sua missão. Fiquei a pensar no que eu tenho feito através de minha profissão e do que tenho a oferecer para ajudar meu próximo… será que tenho deixado família e interesses próprios em favor do Reino de Deus? Tenho entendido o que Deus quer de mim nestes dias tão difíceis?

    Dessa vez minhas lágrimas não ficaram no banco do cinema. Elas refrescaram meu rosto e minha mente na direção de fazer alguma coisa. E quero sempre ter a sensação de que tudo que faço ou farei não é nada comparado ao dom da vida – acordar e saber que mais uma vez o amor de Deus se manifestou em graça a cada um de nós, a fim de tornarmos mais um dia O dia! Dia de fazer uma criança sorrir, de ser gentil, de oferecer um café, de emprestar o ouvido, de ajudar a solucionar um problema, de preparar uma cesta básica, de dar um abraço grátis, de visitar o enfermo, o órfão, a viúva, o doído, de viver um evangelho sem palavra, mas recheado de ações…

    É urgente o verso de Renato Russo, que certamente foi iluminado pelas palavras e pela consciência do evangelho de Jesus quando ele lia a Bíblia – ‘é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar…’ que a gente não pare, nem pense!

    Que a gente colha o dia (Carpe diem), aproveitando-o ao máximo, como nos ensinou o poeta latino Horácio (Odes I, 11.8). Que a gente corra e morra sabendo que nossa vida valeu não a pena, mas a confiança que Deus pôs em nossas mãos de sermos gente que ama, gente que tem a estranha mania de ter fé na vida!

    No Deus que não se confina em templos,

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    Alessandra Viegas, membro da Catedral, é professora, Coordenadora de Ensino e Capacitação e professora da Escola Dominical.

     

     

    Deus na História?

    18 set 2014   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários

    Como alguns sabem, sou professora em uma escola e em um seminário e faço doutorado em Teologia e em História Comparada e, por ‘outros alguns’, já fui várias vezes chamada de doida por conta de gostar tanto de estudar um monte de coisas ao mesmo tempo, de não ter muita vida social e por ter no corpo uma coleção de tendinites… ossos não tão saudáveis do ofício de professor! A despeito do que dizem ou pensam, eu amo as muitas coisas que faço.

    O que realmente amo é perceber como não podemos fazer Teologia sem Antropologia, isto é, não podemos entender absolutamente nada a respeito de Deus – o totalmente Outro e imensuravelmente maior do que nós – se não percebemos quem somos nós. Até mesmo as categorias que utilizamos para o ‘corpo’ de Deus são humanas, senão nunca conseguiríamos entender o sentido de várias passagens bíblicas: as narinas, os olhos, a boca, as palmas das mãos, o estrado dos pés, o coração de Deus e por aí se vai, cantamos ‘que os Seus olhos, sempre atentos, permanecem em nós’.

    Quanta presunção de nossa parte dizer que conhecemos Deus! Um colega de minha turma de alemão me fez essa pergunta no final da aula da semana passada pra eu responder de supetão: “Você disse que estuda Teologia, né? Então me diga aqui uma coisa: você conhece Deus?” Eu simplesmente dei uma gargalhada característica daquelas que quem me conhece identifica de longe e acho que não vou conseguir responder em Português, imagine em Alemão! Assim como a pergunta ficou no ar naquele fim de tarde na correria pra pegar a condução de volta já prevendo o engarrafamento na saída da ilha do Fundão, a resposta não virá no início da próxima aula. Que me perdoem os doutores e doutorandos de plantão, cruéis com suas respostas prontas, cheias de muletas – nomes e mais nomes de livros e de teóricos, também estes de plantão. Eu não sei a resposta – simples assim.

    Deus é alguém que, tanto na Teologia quanto na História, se deixa conhecer. As grandes catedrais não o contêm, tampouco os movimentos de Inquisição ou a incoerência da caça às bruxas que primeiro condenou e depois canonizou, por exemplo, Joana D’Arc. No entanto, a beleza e a nobreza de Deus estão contidas – falo como mulher e com palavras de minha responsabilidade – no sorriso da criança, no amparo ao empobrecido, na luta pelos direitos e pela dignidade humana, no soninho protegido do bebê, na solidariedade a tanta gente que, todos os dias, perde tudo por incêndio, por enchente, por seca, por furacão, por desigualdade social. Assim sim, Deus se dá a conhecer na experiência da vida, no partilhar da História, seja esta Antiga, Medieval, Moderna, Contemporânea ou Comparada, como eu estudo. A grande questão é que eu e você só estamos aqui hoje, vivos, porque sempre existiu gente que fez Deus conhecido em algum gesto de bondade. Gente que talvez nós condenaríamos, gente que achamos – com nossos pré-conceitos – que não conhece Deus.

    E hoje estamos diante de um momento no tempo e no espaço muito estranho a cada um de nós. A tecnologia alcançou dimensão tal a ponto de salvar muitas vidas, não obstante a ganância e a intolerância de outras tantas vidas mata, a cada minuto, centenas também de muitas vidas. Se considerarmos um olhar de julgamento ou uma palavra mal colocada ao nosso próximo como arma letal de alto calibre, assim como considera Jesus no Sermão do Monte (Mateus 5,21-22), o número de mortos aumenta vertiginosamente para milhares de vidas.

    Será que Deus não está em nossa História? Se Ele está e não consigo perceber a ponto de não ser o instrumento que vá fazê-lo conhecido no caminho em que estou trilhando, de nada me adiantam minhas tendinites, meu estudo, meu ofício. Se eu não amar – e fizer alguma coisa para revelar Deus ao caminhante ao meu lado – serei como o sino que soa, mas nada anuncia de bom, ou como o címbalo que retine, mas não leva o alívio de uma boa música ao coração.

    Que Deus faça parte da nossa História, seja ela qual for – essa é minha oração de hoje.

    No Deus que SEMPRE nos aceita como somos e através de nós se dá a conhecer,

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    Alessandra Viegas, membro da Catedral, é professora, Coordenadora de Ensino e Capacitação e professora da Escola Dominical.

    Amor de eternidade…

    4 set 2014   //   por admin   //   Colunas  //  Sem comentários

    Esta semana dois episódios me marcaram bastante acerca da força de uma frase bem feita e bem colocada. Unindo as duas aqui e contando a você, tenho pronto o título destas linhas que vamos começar a construir juntos – eu escrevendo, você lendo. E tomara que possamos, à moda de Umberto Eco, ter aqui uma espécie de ‘obra aberta’, ou seja, que o que eu escreva aqui possa ser discutido, entendido, questionado, ampliado, reescrito, aberto e reaberto em um novo texto, seja oral, seja escrito.

    O primeiro fato ocorreu em minhas curtas andanças pelo feed do facebook, quando me deparei com a máxima: “O mundo precisa de loucos; loucos uns pelos outros!”. Apaixonei-me pela criatividade do autor, anônimo, e confesso que gostaria de ter escrito isso. Como estamos aqui para tentar uma, ainda que pequena, obra aberta, façamo-la a partir de então.

    Assim que li, na mesma hora me veio o texto de 1 João 4,20 à mente, que parafraseio aqui – ‘se alguém diz que ama a Deus, a quem não vê e não ama a seu irmão a quem vê, temos aí um grande mentiroso!’ Logo depois fiquei a imaginar que o evangelho é exatamente essa loucura da paixão de Deus pelo homem – um Deus louco por mim! E o sorriso instantâneo me vem aos lábios em pensar como é profundamente maravilhoso viver e sentir essa paixão do Deus que simplesmente é amor, este que a música popular interpreta muito bem – ‘amor que eu nunca vi igual… amor que não se pede, amor que não se mede, que não se repete, amor…!’

    Nesta minha aventura musical, o segundo fato foi o verso de uma canção gospel extremamente poético: ‘Eu sou momento, Deus é eternidade’. Lá retornei eu ao facebook para compartilhar essas duas frases em relação de oposição e que, sem discussão alguma, apontam juntas fragilidade e efemeridade, verdadeiramente minhas; grandeza e atemporalidade, grandiosamente, de Deus. Ele conhece a minha estrutura e sabe que eu sou pó. Ele conhece todo o universo e ultrapassa o espaço-tempo da física quântica para me dizer todo dia que sua misericórdia não tem fim ainda que eu seja só um momento. Fiz um adendo ao verso: ‘às vezes penso que sou milésimo de segundo’ diante desse ‘tempo divino’: o chamado ‘aoristo’ da gramática grega que eu e o tempo verbal da língua portuguesa não conseguimos alcançar, tampouco entender. Na verdade, o aoristo é um aspecto (e não um tempo!) verbal puro, que não tem início nem fim, não tem limitação temporal – e é ele usado para as ações eternas – como amar – do Deus Pai e de Jesus, o Filho, no Novo Testamento…

    O tempo e o amor de Deus são algo que a gente nunca vai compreender. Isto é fato. É, no entanto, obra aberta em nosso coração e em nossa mente porque Ele se permitiu abrir, se permitiu ser lido e interpretado por nós, gente de carne e osso, limitados que somos.

    Definitivamente, Deus se permitiu habitar conosco e em nós apesar de nós. Isso é momento de eternidade. A única forma que me vêm à mente para encerrar (mas não fechar!) e criar a abertura necessária de nossa conversa hoje, é com música brasileira novamente, iluminada pelo sentimento de Deus por nós ao doar-se e desvelar-se em Jesus: ‘por ser exato, o amor não cabe em si; por ser encantado, o amor revela-se; por ser amor, invade e fim’.

    No Deus que ama eternamente,

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    Alessandra Viegas, membro da Catedral, é professora, Coordenadora de Ensino e Capacitação e professora da Escola Dominical.

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