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    Uma Mensagem para o momento atual: O Profeta Oséias (Os 4.1-19)

    30 mar 2016   //   por   //   Colunas  //  Sem comentários

     “Ouvi a palavra do SENHOR, vós, filhos de Israel, porque o SENHOR tem uma contenda com os habitantes da terra, porque nela não há verdade, nem amor, nem conhecimento de Deus.” (Os 4.1).

    1) Quando o mal se instala na vida do povo.

    As notícias são, em sua maioria, assustadoras neste início de 2016. São dias difíceis: as guerras matam todos os dias dezenas de pessoas; a natureza está em revolta, chove onde raramente chovia, e não chove onde sempre choveu, tornados e terremotos produzem muitas perdas.E o Brasil enfrenta uma das maiores crises de ética e justiça, a Presidente prestes a ser afastada por um ato do Congresso Nacional cuja integridade moral também é interpelada, haja visto o fato inédito da prisão de um Senador da República. O ex-Presidente Lula encontra-se em uma situação ético e moral sobre evidentes suspeitas correndo risco de ser preso. Sua nomeação como Ministro aponta a visível intenção de lhe dar foro privilegiado. Algumas empreiteiras do país acusadas  corruptoras e quadros do governo de corruptos. Políticos e Empresários na cadeia. Ainda que vejamos nisto um quadro que aponta moralização e justiça nos níveis de mando no pais, isto é motivo de vergonha nacional, como sabem pela função de Presidente do Concílio Mundial viajo muito fora do pais, é constrangedor , quando perguntado, explicar o inexplicável. 

    O mundo que vivemos enfrenta degradação de vários formas, a própria natureza geme, fruto da exploração de um capitalismo explorador e selvagem, o que importa é o poder e o lucro. Diversas nações do mundo ocidental mergulham em crises sociais e ambientais. Deus nos fez mordomos da criação (cf. Gn 1.28-30), e nós nos tornamos opressores da criação. O aquecimento global atinge a todos. Continuando como está, em mais 50 anos, parte das cidades litorâneas, como o Rio de Janeiro, submergirão, pelo menos em parte. O mau uso da natureza, na maioria das vezes, não ocorre por parte das populações nativas. As sociedades tidas como “primitivas” têm uma relação muito mais respeitosa e preservacionista da natureza. O capital internacional é reconhecidamente depredador; o que vale é o lucro. Dentro em breve, não veremos mais somente a guerra pelas fontes de energia, especialmente o petróleo como é no Iraque, mas, sim, por fontes de água potável. Desperdiçam-se e se poluem as fontes de água, os oceanos, como exemplo, cito a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, atletas que deveriam vir as Olimpiadas do Rio de Janeiro ameaçam não vir , em virtude dos riscos dos esportes aquáticos, das doenças como zica, dengue e outras.

    A violência presente nas relações institucionais e pessoais: governantes, membros do ministério público são ameaçados de morte, quando se recusam a compactuar com os diversos esquemas de corrupção . A maneira como se quita a oportunidade de educação, saúde, moradia, emprego, de pessoas, no Brasil e  nos países do 3º mundo. Tanta insensibilidade está gerando milhares de marginalizados, especialmente entre os jovens. Estes não são respeitados, educados, enfim, humanizados, mas tratados como animais, e muitos deles respondem como tal. É violência gerando violência. Morre mais gente inocente na violência urbana contra a criança, as mulheres, nos grandes centros urbanos de toda a América Latina do que na guerra do Síria.Sim ! Desafios missionários, para uma volta a pregação bíblica.[1] 

    Vamos aprender com Oséias, onde ele identifica a razão de Israel, no reinado de Jeroboão II, ter chegado a uma situação de opressão, mentira, corrupção e violência, na qual, guardadas as proporções, tem muito a ver com o quadro descrito acima. Tal abordagem visa a nos dar referências históricas bíblicas, da urgência da oração, da missão,da vigilância profética, da consciência mundial, da identificação do mal, e dos caminhos para o futuro.

    Trabalharemos com um esquema que chamamos de pedagogia profética – denúncia e anúncio. O que hoje chamamos desconstruir para construir. 

    2) O que o Profeta Oséias denuncia.

    Deixem-me dizer que, embora o enunciado seja ambicioso, reconheço ser meu espaço pequeno para traduzir tudo que nos ensina o profeta. Ficaremos com o que consideramos o essencial.

    O profeta Oséias[2] era originário do reino do Norte – Samaria; foi contemporâneo de Amós, pois começou a profetizar no período de Jeroboão II; seu ministério continuou após Jeroboão II. Sua indignação contra as classes dirigentes de Israel é tão dura quanto a de Amós .[3]“O que só prevalece é perjurar, mentir, matar, furtar e adulterar, e há arrombamentos e homicídios sobre homicídios.” (Os 4.2), como em Amós: “Porque sei serem muitas as vossas transgressões e graves os vossos pecados; afligis o justo, tomais suborno e rejeitais os necessitados na porta.” (Am 5.12). Nesse conjunto de semelhança entra a linguagem simbólica própria, quando descreve o seu casamento com uma adúltera, e usa a infidelidade da sua esposa para ilustrar a relação de Israel com Deus, marcada pela infidelidade do povo para com o Senhor (cf. Os 3.1). Há, no entanto, na profecia de Oséias, a possibilidade sempre desejada por Deus, ou seja, do arrependimento e conversão do povo a Deus. “Volta, ó Israel, para o SENHOR, teu Deus, porque, pelos teus pecados, estás caído. Tende convosco palavras de arrependimento e convertei-vos ao SENHOR; dizei-lhe: Perdoa toda iniqüidade, aceita o que é bom, e, em vez de novilhos, os sacrifícios dos nossos lábios.” (Os 14.1-2).

    O convite à conversão é o caminho, mesmo que secularizemos, chamando de mudança, transformação. O estado de morte precisa ser transformado em estado de vida.

    Dentre as transgressões do povo de Israel contra o Senhor e seus mandamentos, estão:

    • a) “…a terra se prostituiu, desviando-se do SENHOR.” (Os 1.2c)

                      Quando o profeta fala da prostituição de Israel, não considera a exclusividade de sentido que o termo tem para nós, envolvendo a sexualidade. No sentido profético e bíblico, é muito mais: é desviar-se dos propósitos de Deus; no caso, o povo afastara-se da aliança com Deus, quebrara seus mandamentos[4], por isso a descrição de prostituir-se e desviar-se. Devemos sempre lembrar que o Senhor, o Deus dos profetas, é um Deus ético[5]. Assim, nós, hoje, quando quebramos os mandamentos de Deus, estamos nos prostituindo, nos desviando de Deus. O Brasil o mundo, hoje, sim a terra, está em prostituição, desviada de Deus, por isso há tanta falta de justiça, e há a banalização da vida, etc. … Segundo o profeta Jeremias, o sentido do propósito de Deus para o ser humano é: “Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que desejais.” (Jr 29.11).

    • b) “…Ouvi a palavra do SENHOR, vós, filhos de Israel, porque o SENHOR tem uma contenda com os habitantes da terra, porque nela não há verdade, nem amor, nem conhecimento de Deus.” (Os 4.1).

    b.1) “… não há verdade …”

    Esta é a palavra do Senhor, como no capítulo 1.1, aqui, não é um narrador, é uma nova parte do livro, onde Deus fala ao povo: “…vós, filhos de Israel”. Aqui, verdade não é no sentido grego de um conceito, onde se encontram o pensamento e a realidade; essa é uma compreensão ocidental. No mundo bíblico, emmet – verdade, da raiz mn, de onde vem amém, é fidedignidade, coerência entre palavra e ação. No Judaísmo rabínico, verdade se confunde com a Palavra de Deus.

                      A verdade é tudo que não havia em Israel em tempos de Oséias. Havia engano, se celebravam cultos pomposos a Deus, mas Deus não estava presente; afinal, o culto escondia a quebra constante do mandamento: “Não dirás falso testemunho contra teu próximo.” (Ex 20.16). Hoje, nós ouvimos mentiras dos políticos, dos comerciais de televisão, e até no meio religioso há mentiras sendo praticadas, como, por exemplo, Igrejas que prometem prosperidade num ato místico e mágico. Deus está em contenda contra a nossa terra brasileira, também, por causa da mentira que entre nós se instalou. Já mencionada . A própria educação, por mais comprometida com mudança que seja, não consegue impor-se perante os valores coercitivos do “deus Mercado”; nossos alunos se desconvertem diante do mercado, há uma lógica individualista de sucesso, que nos impõe derrotas no resultado do processo educacional. Há uma mentira em curso no mundo e ela é geradora de MORTE. 

    • c) “… nem amor …”

    Perguntei-me na construção deste texto: é apropriado, numa momento destes, falar de amor? Não seria eu acusado de simplismo, emocionalismo, romantismo inconseqüente, num momento tão grave da nação ? Possivelmente. Mas, preciso como cristão, pastor e teólogo, ser honesto e fiel, para com o texto do profeta. Ele diz, claramente, que a falta de amor era uma das causas de tanta injustiça, e, por isso, também, a terra estava enferma. Mas, retornemos ao texto e vejamos como o próprio Oséias o trata.

    A que conceito de amor se referia o profeta Oséias, quando diz que Deus está em contenda com a terra, porque não há amor? O primeiro termo é o verbo aheb, que pode significar o ato sexual, o amor conjugal; o amor fraternal e entre amigos é o verbo traduzido maiormente na tradução grega do Antigo Testamento, a Septuaginta, pelo termo ágape ou verbo agapao. O amor de Deus é exclusivo e, inclusive, mandamento (cf. Dt 6.5). No caso de Oséias, o amor do Senhor por seu povo é o fundamento da Aliança. Israel e o Senhor são inseparáveis; por isso, o uso da união do profeta com uma adúltera. Essa relação em amor foi profanada pela esposa infiel –  Israel, que negou o amor.[6]

    Assim, podemos dizer que o sentido de amor que Oséias dá, fala da relação entre o povo e Deus, mas não só, pois os discursos proféticos mostram que a ausência de amor, temor de Deus, seu juízo, traz uma relação de indiferença, insensibilidade para com o próximo, e, neste caso, o termo que o profeta usa mais freqüentemente é hesed, cujo significado é mais abrangente, traduz amor, fidelidade, generosidade, e até misericórdia. No caso de Israel, a ausência do amor gerava opressão do pobre (cf. Os 4.3), da viúva, enfim, aumentava o número dos marginalizados. Onde Deus está, seu amor (aheb e hesed) precisa ser vivido. Neste caso, o amor volta a ser elemento decisivo na reconstrução da paz, da justiça e, assim, da prosperidade.

    Desse modo, atualizar o amor de Deus, hoje, é o caminho de sarar a terra, fazer com que o verbo de Deus – Jesus – se faça carne, nos atos do povo de Deus, e habite entre nós, “… cheio de graça e verdade …”

    • d) “… nem conhecimento de Deus …”

    As expressões do verso 6 do capítulo 4 de Oséias ilustram e explicam o porquê da ausência de conhecimento de Deus: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.” (Os 4.6).

    Por outro lado, quando se fala no Antigo Testamento de conhecimento, não é o conhecimento grego, teórico, o pensamento lógico, mas, sim, fala da vida, do experimentar, viver, ter conhecimento de algo ou alguém, é acima de tudo ter comunhão, compartilhar a vida com o alvo de conhecimento. O termo pode expressar a relação sexual entre marido e mulher. Em resumo, o conhecimento de Deus começa pela comunhão e intimidade com Deus. Pois quem conhece a Deus descobre seu amor paternal: “Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho.” (Os 11.1). O uso de Israel menino indica dependência do Pai – Deus, intimidade e comunhão, isto é, o conhecimento que faz do filho (Israel), obediente, fiel, submisso. O conhecimento de Deus pode ser expresso no texto do próprio Oséias: “O SENHOR, o Deus dos Exércitos, o SENHOR é o seu nome; converte-te a teu Deus, guarda o amor e o juízo, e no teu Deus espera sempre.” (Os 12.5-6).

    Ah! quanta distância do conhecimento de Deus está o mundo presente; é como diz o profeta: “Por isso, a terra está de luto, e todo o que mora nela desfalece, com os animais do campo e com as aves do céu; e até os peixes do mar perecem.” (Os 4.3). A terra brasileira, latino-americana, africana, etc., não somente pela morte das crianças de rua, mas também porque a natureza está sendo assassinada, as matas amazônicas agonizam. A vida de crianças, a vida da natureza está ameaçada: Quem as salvará? Nós temos a mensagem, o mandado missionário, as pedras já estão clamando. Nossa ação educacional precisa ser mais ousada e propositiva em sua relação com a sociedade em geral. Precisamos reconhecer que temos feito muito pouco em relação ao desastre que contemplamos dia a dia. Sim, nosso mundo caminha para a desconstrução. Como Igreja Metodista temos uma herança que nos compromete com mudança, transformação. 

    • e) “… O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote …” (Os 4.6a).

    Agora vamos sair do quadro de caos, para o de esperança, dentro da pedagogia profética. Há futuro para os que crêem em Deus, no seu amor, na sua Justiça, no seu Reino. Vejamos o que o profeta tem a nos dizer.

    A minha, a tua, a nossa responsabilidade é grande nisso tudo que está acontecendo com o nosso Brasil e o mundo.  A sentença do profeta em seu contexto incidia sobre os líderes religiosos de Israel. Hoje, também incide. A participação dos ditos evangélicos, conforme os meios de comunicação, não é com o grupo do bem. Aparecemos mais freqüentemente como grupo do mal; os mal feitos de parte  da bancada evangélica no Congresso Nacional mostram isso. Sabemos que há uma propaganda constante contra os evangélicos, e nosso dever é vigiar para não terem do que nos acusar.

    A acusação do profeta foi clara: “… porque rejeitaste o conhecimento (de Deus), também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim …” Quem não deseja cair na rejeição de Deus, precisa restabelecer a dignidade do altar, da intimidade com Deus, de uma teologia bíblica, comprometida, primeiro, em conhecer e ouvir a Deus. Não dando ouvidos aos desejos e cobiças do nosso próprio coração, crescendo no amor e conhecimento do Senhor. Aqui, também, a mensagem de Oséias é o caminho da bênção: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra.” (Os 6.3). “Esquadrinhemos os nossos caminhos, provemo-los e voltemos para o SENHOR.” (Lm 3.40). “O Senhor é rico em perdoar.”

    3) O que o Profeta anuncia?

    Nem tudo é denúncia do pecado e condenação na profecia de Oséias. Há várias declarações de amor, de misericórdia, de esperança, de perdão; na verdade, as denúncias do pecado são atos de amor e advertência, que visam ao arrependimento e à conversão do povo. Desse modo, a pregação do profeta, e também a nossa, hoje, deve, junto à denúncia clara, audível, sem subterfúgio, levar o povo ao arrependimento e ao reencontro com Deus.

    Vejamos alguns vários momentos de apelo à conversão, os sinais de que há esperança:

    • a) No primeiro capítulo: “Disse o SENHOR a Oséias: Põe-lhe o nome de Não-Meu-Povo, porque vós não sois meu povo, nem eu serei vosso Deus. Todavia, o número dos filhos de Israel será como a areia do mar, que se não pode medir, nem contar; e acontecerá que, no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus vivo.” (Os 1.9-10).
    • b) No segundo capítulo, referindo-se a sua mulher adúltera: “Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração. E lhe darei, dali, as suas vinhas e o vale de Acor por porta de esperança; será ela obsequiosa como nos dias da sua mocidade e como no dia em que subiu da terra do Egito.” (Os 2.14-15).
    • c) No breve capítulo 3: Depois, tornarão os filhos de Israel, e buscarão ao SENHOR, seu Deus, e a Davi, seu rei; e, nos últimos dias, tremendo, se aproximarão do SENHOR e da sua bondade.” (Os 3.5).
    • d) No capítulo 6, há um notório convite ao retorno à intimidade com Deus, a receber dEle a cura: “Vinde, e tornemos para oSENHOR, porque ele nos despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará. Depois de dois dias, nos revigorará; ao terceiro dia, nos levantará, e viveremos diante dele. Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra.” (Os 6.1-3).

    Poderia continuar mostrando como o profeta reflete o juízo, mas também a bondade, amor, justiça e misericórdia de Deus. O ápice se encontra no capítulo final, quando diz: “Volta, ó Israel, para o SENHOR, teu Deus, porque, pelos teus pecados, estás caído. Tende convosco palavras de arrependimento e convertei-vos ao SENHOR; dizei-lhe: Perdoa toda iniqüidade, aceita o que é bom e, em vez de novilhos, os sacrifícios dos nossos lábios.” (Os 14.1-2).

    Para Oséias, o restabelecimento da comunhão com Deus trará sobre a terra a justiça: “Então, disse: semeai para vós outros em justiça, ceifai segundo a misericórdia; arai o campo virgem; porque é tempo de buscar aoSENHOR, até que ele venha e chova a justiça sobre vós.” (Os 10.12).

    Atentemos para as lições de Oséias, e construamos um tempo de esperança e de cura para nossa terra e seu povo. Amém! Amém! Amém!

    Com carinho e oração por todos vós, povo Metodista da 1 e 7 Região.

    Vosso irmão, Bispo Paulo Lockmann

     

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