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    Somos todos irmãos

    4 mai 2014   //   por   //   Colunas  //  Sem comentários

    Você e eu somos imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:27). Como feituras sua, criados em Cristo (Efésios 2:10), somos amados por aquele que deu sua vida em nosso lugar (João 3:16). No sacrifício da cruz, fomos todos feitos um em Jesus (Gálatas 3:28). Gerados filhos do Deus altíssimo (1 João 3:1), por meio da sua graça e amor.

    Menina dos olhos de Deus (Zacarias 2:8), coroa de glória e diadema real na mão do Senhor (Isaías 62:3), incumbidos por Ele de amarmos uns aos outros, como Ele nos ama (João 15:12).

    E Ele nos ama na totalidade de sua essência. Deus é amor (1 João 4:16). Ele não escolhe amar apenas os mais bonzinhos. Ele não escolheu amar apenas os mais bonitos. Nem os mais ricos, ou mais altos. Cada ser humano foi amado desde a eternidade. Frutos do sonho de Deus (Salmos 139:16). Preciosos e insubstituíveis (Lucas 15:4-6). Eu e você. E cada pessoa ao nosso redor.

    Pai dos órfãos e juiz das viúvas (Salmos 68:5-6) o Senhor que não faz acepção de pessoas (Deuteronômio 10:17-19) nos conclama a zelar pelo direito, pela justiça e em favor do oprimido:

    “Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva” (Deuteronômio 27:19); “Fazei justiça ao pobre e ao órfão; justificai o aflito e o necessitado” (Salmos 82:3);

    “Assim diz o Senhor: Exercei o juízo e a justiça, e livrai o espoliado da mão do opressor” (Jeremias 22:3).

    À luz dessa verdade, podemos admitir qualquer forma de tratamento desumano que atinja nossos irmãos e irmãs? Sabendo o quanto somos preciosos para Deus, poderíamos fechar os olhos para o sofrimento ou injustiça cometidos contra seus filhos?

    Certamente não deveríamos.

    O combate ao pecado do RACISMO é uma das causas que deve integrar nossas pautas de lutas contra as injustiças e tratamentos desumanos.

    “A foto ao lado é do pigmeu Ota Benga, que ficou em exibição junto a macacos no zoológico do Bronx, Nova York, em 1906. Ota foi levado do Congo para Nova York e sua exibição em um zoológico americano serviu como um exemplo do quê os cientistas da época proclamaram ser uma raça evolucionária inferior ao ser humano. A História de Ota serviu para inflamar crenças sobre a supremacia racial ariana defendida por Hitler. Sua história é contada no documentário “The Human Zoo”. (Fonte: Daniel Belchior – Carta Capital)

    “Racismo existe quando permitimos que cor, casta, língua, nacionalidade, tribo, etnia ou cultura, possam de alguma maneira erigir uma parede entre pessoas, individual ou coletivamente, de maneira a fazer que alguém expresse desprezo, preconceito ou domínio sobre outrem¹”

    Ao longo da história temos muitas manifestações inaceitáveis que expressam e reforçam a exclusão e segregação de determinados grupos em nossa sociedade. Recentemente circulou pela internet uma campanha que – dizendo combater o racismo – reafirmava a comparação entre macacos e pessoas negras. A hastag #SomosTodosMacacos tomou conta das redes sociais, que logo foram inundadas de imagens mostrando anônimos e celebridades comendo bananas.

    Cruel e absurda, essa campanha tem sido duramente criticada por alguns dos mais proeminentes estudiosos engajados nas lutas contra a exclusão². Mas e nós igreja? Qual o papel do cristão no combate ao racismo? Esse deve ser um dos temas abordados em nossa formação cristã?

    “O racismo, uma abominação para Deus e uma afronta à dignidade humana, é uma das mais penetrantes e perniciosas formas de pecado social”³

    Segundo o Rev. José do Carmo da Silva – Pastor Metodista, coordenador do Ministério Regional de Combate ao Preconceito Racial (5ª RE) – a temática deve estar presente em nossa formação e prática cristã. Com base nos princípios declarados por John Wesley, o Reverendo apresenta três motivos pelos quais devemos estar engajados nessa luta°:

    Primeiro: a igreja deve se envolver, pelo fato de que se opor a toda forma de opressão e injustiça social sempre foi característica do Metodismo. A respeito disso declarou John Wesley: “A excelência da sociedade para a Reforma dos costumes é… primeiro, mover campanha aberta contra toda a impiedade e injustiça, que cobrem a terra como num dilúvio, e isto é um dos meios mais nobres de confessar a Cristo.”

    Segundo: a Igreja Metodista deve se envolver, pela razão de que faz parte da Missão de Deus, da qual ela participa o fazer discípulos e discípulas. E tal incumbência deve ser realizada com equilíbrio, sem cair na alienação de ser uma “igreja espiritual” que só fala do celeste porvir, ou na tentação de existir como uma “igreja politicamente assistencialista” que só se envolve com questões sociais sem se preocupar com a redenção plena do indivíduo. Alertando contra tais extremos, John Wesley assevera: “Todo projeto para refazer a sociedade, que não se importa com a redenção do indivíduo, é inconcebível… E toda doutrina para salvar os pecadores, que não tem o propósito de transformá-la em guardiã contra o pecado social é inconcebível”.

    Terceiro: a Igreja Metodista deve se envolver, por ser ramo da Igreja Cristã, a qual legitimou teologicamente a escravidão negra, a partir das Escrituras, Genesis 09, cabe a Igreja na atualidade desconstruir o mal que ainda resta do que ajudou a construir. Sobre o combate a escravidão John Wesley escreveu uma carta ao parlamentar cristão Wiilliam Wilberforce. Na data de 23 de fevereiro de 1791, pouco antes de sua morte. João Wesley havia lido um Livro de Gustavus Vasa sobre um antigo escravo de Barbados, o que lhe tocou muito, levando-o a escrever uma palavra de encorajamento ao parlamentar recém-convertido. Wiilliam Wilberforce, havia tido um impactante encontro com Deus, e considerava abandonar a vida política e se entregar a uma vida de contemplação religiosa sem se envolver com as questões sociais.

    Um vídeo com o pronunciamento oficial da igreja metodista contra o pecado do racismo pode ser visto em: http://www.metodista.org.br/pronunciamento-oficial-da-igreja-metodista-contra-
    o-pecado-do-racismo

    Diante de todos os argumentos aqui apresentados, entendo, portanto, que é imprescindível que nós cristãos estejamos engajados e atuantes nas lutas contra toda forma de exclusão e preconceito. Lembrando que Deus nos chamou para o amor e a prática da justiça. “Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do diabo. Qualquer que não pratica a justiça, e não ama a seu irmão, não é de Deus”(1 João 3:10).

    “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça” (Romanos 1:18)

    _ _

    Rachel Colacique, professora, paulista e corintiana – é membro da Catedral Metodista do Rio de Janeiro, fazendo parte da diretoria da sociedade de jovens.

     

    ¹ Disponível em: http://dialogue.adventist.org/articles/07_1_pipim_p.htm
     
    ² Nesse texto não vou me deter nos argumentos apresentados pelos críticos da campanha, mas indico a leitura de dois artigos que podem contribuir com a discussão: http://www.brasilpost.com.br/henrique-braga/naosomosbananas_b_5228962.html?fb_action_ids=277074322459345&fb_action_types=og.likes&fb_source=aggregation&fb_aggregation_id=288381481237582 ;
    http://www.geledes.org.br/em-debate/colunistas/24431-contra-o-racismo-nada-de-bananas-nada-de-macacos-por-favor-por-douglas-belchior .
     
    ³ Disponível em: http://www.veritatis.com.br/respostas-catolicas/7589-o-cristianismo-representando-deus-como-um-homem-branco-colaborou-com-o-racismo
     
    ° O texto pode ser lido na íntegra em: http://www.metodista.org.br/racismo-abrindo-os-olhos-para-ver-e-o-coracao-para-acolhe#sthash.8kWjRFgt.dpuf

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