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    O mais forte

    4 ago 2014   //   por   //   Colunas  //  Sem comentários

    Dia desses vi a seguinte frase no facebook, supostamente dita pelo falecido Renato Russo:

    “Quando você tem a capacidade de não falar, não ligar e não se importar, está aprendendo o que é ser forte.”

    Observando o grande número de comentários e compartilhamentos, é fácil perceber o quanto as pessoas costumam exaltar a “indiferença” como virtude. A idéia do “não sofrer”, “não sentir”, é sempre acompanhada de expressões como “agora eu aprendi”, “estou crescendo”, dentre tantas outras que indicam evolução em relação a um estado anterior.

    Usualmente confundimos sentimentos com fraqueza. Alguém que chora pode facilmente ser tido como débil, ou covarde. Aprendemos a ver na Razão, a superioridade humana. E falsamente nutrimos a idéia de que isolar nossas dores, ignorando-as, nos fará maiores.

    Mas talvez não seja bem assim. Talvez mentir para você mesmo, calando seus sentimentos, seja só mais uma forma covarde de fugir da vida. Talvez ser “forte” seja exatamente o oposto disso.

    É preciso muita coragem para encarar seus próprios sentimentos. É preciso muita força para passar pelo luto, sem negar ou mascarar a dor deixada pela ausência. É preciso valentia para encarar as cicatrizes marcadas na alma.

    Veja como parece estranho o raciocínio: “a pessoa me magoou e, para não ser machucada outra vez, vou passar a isolar todos os sentimentos que tenho em mim”.

    Ora! Mas mudar seu modo de ser e viver, para que o outro não mais afete sua vida, não seria exatamente dar a esse outro o poder de te afetar diariamente? Pense bem: é você quem vai carregar o peso pela atitude cruel daquele que te feriu? É você quem vai deixar de sorrir, de ter esperança, porque um acontecimento infeliz ocorreu? Seria mesmo válido deixar o rancor e a indiferença tomar o lugar do que antes era amor?

    No livro “De Profundis”, Oscar Wilde (1) conta sua experiência de amor e perdão. O livro é composto por cartas que Wilde escreveu, dentro da prisão, para aquele responsável por sua captura. Em meio às belíssimas passagens narradas, o autor vai abrindo o coração para aquele que o feriu, e chega à conclusão que nós cristãos já aprendemos com a Bíblia: devemos amar e perdoar. Isso sim nos faz fortes! Nos liberta.

    “E é bem triste para mim pensar que o ódio, o desprezo e o rancor tomarão para sempre em meu coração o lugar antes ocupado pelo amor […] Custe o que custar, devo manter o amor em meu coração. Pois se for para a prisão sem amor, o que será feito da minha alma? […] E não me arrependi dessa decisão por um minuto sequer, mesmo nos períodos mais amargos do meu cativeiro […] para meu próprio bem, eu não podia fazer outra coisa senão amá-lo.” (2)

    Com Jesus aprendemos a amar nossos inimigos. A dar a outra face. Aprendemos a não fugir dos leões. A não ignorarmos os gigantes.

    (1) Escritor irlandês (1854 – 1900). Para mais informações: http://pt.wikipedia.org/wiki/Oscar_Wilde
    (2) Trecho de “De Profundis” – Oscar Wilde
     

    Perdoar é para os bravos. É para aqueles que encaram suas dores, olhando-as bem no fundo, confiantes de que não serão devorados por elas. Não carregue uma prisão dentro de si, você já foi liberto. Não seja escravo do medo, você é filho do Amor. Não se feche para a vida, pois você não terá que trilhar esse caminho sozinho.

    O Deus que esteve com José, quando este mostrou sua coragem ao encarar seu passado e perdoar seus irmãos (Gênesis 42); o mesmo Deus que agiu na reconciliação de Esaú e Jacó (Gênesis 33); o Deus que encheu o coração da jovem escrava de Naamã, que não ignorou o estado de seu senhor e indicou o caminho para sua cura (II Reis 5); o Deus que deu força e sensibilidade à jovem Ester (Ester 7); o Deus que ajudou Daniel a viver fiel, mesmo cativo (Daniel 1); esse mesmo Deus estará com você a cada passo, enchendo seu coração de paz e te dará força para perdoar.

    E a verdade do amor de Cristo, essa sim te fará forte. Esse sim te libertará!

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    Rachel Colacique, professora, paulista e corintiana – é membro da Catedral Metodista do Rio de Janeiro, fazendo parte da diretoria da sociedade de jovens.

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