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    Em memória de mim

    24 mar 2015   //   por   //   Colunas  //  Sem comentários

    Sempre gostei muito de participar do momento da ceia. Desde o meu batismo, ainda na infância, as referências simbólicas e o processo litúrgico traziam conforto ao meu coração.

    Como um abraço, um carinho, em que os céus me lembravam do amor e sacrifício feito por mim.

    As palavras eram as mesmas “e tendo Jesus dado graças” e, internamente, repetia o que já havia memorizado em meu coração: “o partiu e deu aos discípulos, dizendo: isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isso em memória de mim”.

    “De semelhante modo”… e seguia o texto. Lembro até hoje a ênfase que meu pastor dava na parte do vinho “bebei dele todos – vejam bem, todos os discípulos”, como batista, sua preocupação sobre quem poderia participar, ou não, da ceia ficava evidente quando esse trecho era repetido mensalmente.

    Em algumas ocasiões especiais poderia haver variações na liturgia, mas de modo geral o evento era esse. “Examine-se, pois, o homem a si mesmo”, e nesse momento o símbolo falava ainda mais forte para mim: todas as memórias ruins daquele mês, todas as tristezas, todas as angústias, todas as situações de descontrole vinham à minha mente, e era como se o suco de uva fosse um rio, levando todas as más coisas em sua correnteza.

    E se nesse momento lembrássemos algo que tivéssemos feito a alguém, a troca de cálices simbolizava o perdão restaurador de Cristo. Sim, simbolicamente a ceia do Senhor ainda fala muito comigo!

    Essa semana visitei uma igreja com a liturgia diferente na realização da ceia. Ao invés de cada um pegar seu pão e vinho individualmente, e voltar para seu lugar no banco, um irmão servia ao outro: o pedaço de pão era embebido no suco de uva, e servido na boca do irmão ao seu lado na fila, que faria o mesmo por você.

    O choque inicial foi inevitável! Em uma fração de segundos me vi desconcertada, sem saber bem como agir. Não digo externamente… isso era bastante simples e claro, mas fiquei sem saber o que fazer com meus processos internos: o rio, as memórias, as tristezas, a necessidade de perdão e cura.

    E então eu percebi uma beleza diferente: aquela ceia não era “minha”… mas do irmão à minha frente.

    Tive vontade de parar ali e conversar: será que ele também precisava de um abraço do céu?

    Quais seriam suas lutas? Quais dores o angustiavam? Será que ainda havia alguma dificuldade de receber perdão? Será que tinha clareza do quão precioso era o sacrifício feito na cruz?

    E me lembrei do quanto às vezes eu vivo um Evangelho individual. Do quanto a pressa do cotidiano me rouba oportunidades de contato com as pessoas à minha volta.

    Porque a frase “em memória de mim” traz à mente não apenas o sacrifício feito pela minha vida, mas pela vida do meu irmão também. “Em memória de mim” inclui todos os cegos nas estradas; todos os leprosos à margem da cidade; todas as mulheres desamparadas. “Em memória de mim” inclui os casamentos em que não há mais vinho; inclui as crianças e a pureza de sua fé; inclui todos os Zaqueus, os Pedros e os Jairos; inclui todos os meninos com seus pães e peixes.

    “Em memória de mim” fala não apenas da sua morte e ressureição, mas fala também de sua vida. Vida doada a cada pequeno gesto. Vida doada ao próximo. Vida que já não era sua somente, mas do mundo, por amor.

    Há uma canção cristã, em inglês, que conta a história de um menino que vai até a casa de sua avó. No caminho, seu irmão acaba ficando pra trás, perdido e machucado. Mas ele não se importa muito, afinal, todas as guloseimas de que poderia desfrutar estavam ali, bem à sua frente: “mordido duas vezes por serpentes do chocalho, emaranhadas no carvalho de veneno, ele caiu e quebrou as pernas em uma grande ravina. Quando eu cheguei na casa da avó ela tinha nos feito chá e bolo. Ela me perguntou onde meu irmão estava, eu disse que eu não sei e eu comi.” A música segue, celebrando a grandeza de um céu e paraíso vindouro, nos fazendo questionar a indiferença do menino por seu irmão caído.

    É disso também que fala o “em memória de mim”. De um evangelho que não se preocupa com a minha salvação apenas. De um Deus que amou de tal maneira o mundo, que entregou seu filho unigênito – seu único filho, seu bem mais precioso – para que TODO aquele que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna.

    Que essa lembrança esteja sempre fresca em nossas memórias. Amém!

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    Rachel Colacique, professora, paulista e corintiana – é membro da Catedral Metodista do Rio de Janeiro, faz parte da diretoria da sociedade de jovens e secretária distrital da Federação de Jovens 1a RE – distrito do Catete.

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