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    A Virada: O nascimento do mundo moderno

    22 jul 2015   //   por   //   Colunas  //  Sem comentários

    A Virada – autor: Stephen Greenblatt.

    Editora: Companhia das Letras

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    A Virada: O nascimento do mundo moderno

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    Trata-se de um estudo feito pelo autor norte – americano Stephen Greenblatt, cujo tema é o epicurismo presente em um poema de Lucrécio, encontrado pelo humanista italiano Poggio de Bracciolini, quando este visitou um mosteiro na Alemanha. E vai desenvolvendo a questão do epicurismo*, tanto na Antiguidade Clássica, passando pelo cristianismo, até chegar na Renascença e na Idade Contemporânea.

    Começa falando sobre como Poggio chegou até o livro. Poggio era secretário do antipapa Baldassare Cossa e resolveu ir em busca de um livro, no qual, encontrava – se um famoso, porém esquecido poema polêmico chamado “De rerum natura”, ou Das coisas naturais – de Lucrécio. E o capítulo vai além e explica a razão que levou o humanista a procurá – lo. O que ocorre é que, após a realização do Concílio de Constanza (entre a Itália e a Suíça) Poggio perdeu seu emprego, diga – se de passagem, o Concílio ocorreu porque havia dois papas, e precisava – se resolver qual era o que tinha que ser aceito pelo Imperador do Sacro Império Romano e Germânico (abolido por Bonaparte e sucedido pelo Império Austríaco em 1806 aproximadamente).

    Portanto, Poggio estava desocupado e como humanista de seu tempo foi procurar por um livro, encontrando-o num mosteiro alemão. O poema pagão falava de uma visão que havia nos tempos do Império Romano – o epicurismo. De Epicuro, filósofo grego que regava que não havia deuses, vida pos mortem, e que o homem deveria aproveitar todos os “benefícios da carne”, uma vez que depois morreria e tudo acabaria. Tal visão embasava a vida negligente em termos espirituais daqueles tempos em que o paganismo grassava no Império. O importante era ser feliz, como diz aquele filme “Sociedade dos Poetas Mortos” -“Carpe diem” (Aproveitem o dia). Versava sobre uma vida despreocupada: bebida em excesso, luxúria, promiscuidade, enfim, uma vida que permitisse ao homem encontrar a felicidade, um dos objetivos do homem, segundo Epicuro. No entanto, logo que o cristianismo foi oficializado, o poema acabou sendo banido. Ao mesmo tempo, o poema falava dos átomos, dizendo que tudo surgiu a partir dos átomos – atomismo. Outra questão condenada pela Igreja Católica,

    hegemônica naquele momento. Este atomismo deu origem ao pensamento científico moderno, com uma visão na qual Deus não tinha espaço. Baruch Spinozza seguiu esta linha de pensamento. O interessante é que seria aproveitado por humanistas cristãos e devotos como Roterdã e Thomas More. Na Europa renascentista, havia dois grupos:
    humanistas radicais e humanistas cristãos. O primeiro grupo seguia à risca tal visão de que o homem era o centro do universo e não precisava de Deus, até porque – segundo eles, o Senhor não existia. Levavam aos extremos De rerum natura. Do outro lado, havia os humanistas cristãos. Refiro – me a Erasmo de Roterdã (filósofo holandês) e também a Thomas More (Utopia). Estes dois viam que o pensamento epicurista e o poema poderiam ser aproveitados pela Igreja e pelos seus fiéis. Feitas as devidas adaptações, não haveria problema algum.

    O poema foi famoso no processo de independência das 13 colônias, segundo o autor, pois os pais da República Norte – Americana leram o poema e viram nos textos de escritores como John Locke que o povo deveria viver para encontrar a felicidade. É claro que o conceito de felicidade estava adaptado aos novos tempos, e isto por influência dos humanistas cristãos. O interessante é que tal visão que embasou a formação dos Estados Unidos veio a embasar também a ideia de que o norte americano deveria encontrar a felicidade e enriquecer. Isto, também, influenciou os imigrantes que foram para a América do Norte em busca da felicidade.

    Conclusão: Nada contra a felicidade. Encontrar sua realização pessoal. A própria Bíblia fala de Abraão, que a buscou no seu trabalho. Mas, sempre associou – a uma vida com Deus. O mesmo era defendido pelos humanistas cristãos. O protestantismo é, diga – se de passagem, herdeiro desta visão. O homem deve procurar sua felicidade, mas com Jesus Cristo ao seu lado, direcionando sua vida.

     

    Texto adaptado por Neize Tavares

    *Epicurismo - fil doutrina do filósofo grego Epicuro (341-270 a.C.) e seus epígonos, caracterizada por uma concepção atomista e materialista da natureza, pela busca da indiferença diante da morte e uma ética que identifica o bem aos prazeres comedidos e espirituais, que, por passarem pelo crivo da reflexão, seriam impermeáveis ao sofrimento incluído nas paixões humanas.

    p.ext. o modo de viver, de agir, de quem só busca o prazer; sensualidade, luxúria.

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    Bruno Menezes – membro da Catedral Metodista do Rio de Janeiro

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