• Inscreva-se no RSS da Catedral

    A PALAVRA DE DEUS NO COTIDIANO: uma breve reflexão teológica!

    28 jan 2016   //   por   //   Colunas  //  Sem comentários

    “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz e mais   penetrante do que qualquer espada  de dois gumes; ela penetra até a divisão da alma e do espírito, das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração”. – Hb 4:12

     

    A PALAVRA DE DEUS NO COTIDIANO: uma breve reflexão teológica!

     

    Para que haja uma reflexão constante sobre o uso da bíblia e sua utilidade na vida e prática do ser humano, é necessário  compreender como a dinâmica existencial foi vital na construção dos textos bíblicos e como tornou-se imprescindível na compreensão dos dilemas e realidades da vida diária.

    É evidente que os textos bíblicos nasceram da relação estreita entre a fé do povo e as demandas do cotidiano, entre a relação do ser humano com o seu Deus. Como em qualquer momento histórico, o cotidiano apresenta-nos as suas demandas e desafios. É neste contexto que a Igreja é chamada, de alguma forma, a ser um farol que ilumina o caminho, tendo na sua tradição, herança teológica e bíblica, os principais pilares na compreensão e discernimento da realidade cotidiana.

    É importante salientar que a bíblia no cotidiano deve interagir e pontuar caminhos que respondam com as demandas do tempo presente. O maior desafio sempre será levar o texto de volta à vida e assim, direcionar o ser humano na descoberta do sentido e significado do amor, da fé e do serviço ao próximo.

    É de vital importância ressaltar que os textos bíblicos nascem primeiramente a partir de um ambiente de oralidade e se desenvolvem até alcançar a forma de textos canônicos. Levar os textos bíblicos de volta para o chão da vida é e sempre será um desafio a qualquer geração.

    Não relacionar o texto bíblico  à vida pode provocar no ser humano um distanciamento da espiritualidade cristã, bem como da saudável aplicação do mesmo ao caminho. Já aconteceu em vários momentos da história do cristianismo o distanciamento do povo, da tradição e reflexão bíblica. Do cristianismo nascente, com a sua percepção aguçada sobre a importância da correlação espiritualidade e cotidiano, passando pelo dogmatismo eclesiástico, desenvolvido na institucionalização da Igreja, até o período histórico, denominado de iluminismo, que enxergava os textos bíblicos meramente como construções históricas, sem utilidade na vida presente, e assim, dando a razão à condição de ser a intérprete da vida diária.

    Outra questão é o distanciamento relacional entre a bíblia e o cotidiano. Distanciamento que poderá provocar a perda ou reducionismo do significado que o texto tem para a existência e, assim, servir meramente para uma simplória sistematização e normatização dos pressupostos da fé.

    Um exemplo pertinente sobre a relação bíblia-cotidiano está no texto do livro de Deuteronômio conhecido pela tradição judaico-cristã como Shemá ( Dt 6:4-9). Nele, é possível encontrar subsídios para a releitura do evangelho de Jesus fundamentado em     dois principais mandamentos: “Amar a Deus e ao próximo”.

    No Shemá/ouvir, amar é preceito para a vida. Amar é necessário e dever ser feito com intensidade de ser e com vitalidade existencial.  No mesmo contexto, está a importância do ensino, que se desenvolve a partir da compreensão do significado da palavra (dabar) e caminho (derek).  Palavra e caminho estão correlacionados à vida e à presença de Deus no cotidiano. O Shemá/ouvir enfatiza as marcas distintivas que alicerçam o caminho na palavra e a palavra no caminho. É um chamado permanente a adorar a Deus e a ensinar e aprender.

    Ao estabelecermos critérios para a prática da bíblia na vida diária, é importante salientar a necessidade de aplicá-la às diversas dimensões da existência e espiritualidade. Da liturgia até as mais modernas ferramentas de comunicação social.  Em todos os espaços, a ênfase deve ser sempre o iluminar o caminho através da presença e palavra de Deus.

    Os textos bíblicos não devem ter outro sentido e significado que não seja viabilizar a vida. Dissociados da vida e do cotidiano, não somente inviabilizam a existência, como submetem a consciência a um estéril literalismo, que desenvolvido na rigidez das regras, estabelece-se como fundamentalismo religioso.

    A vida cotidiana não pode ser a intérprete dos textos bíblicos. É a palavra que ilumina a vida e não o cotidiano. Quem assim pensa, submete a sua consciência ao subjetivismo e incoerência bíblica. Outro perigo é a tendência a ler as escrituras como simples documentos históricos ou coletânea dogmática. Tais leituras, dissociadas da experiência existencial, desvalorizam a história de fé de um povo para sustentar-se nos pressupostos racionalistas.

    _ _

    Rev. Marcello Fraga

    Deixe um comentário