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    A “não-crise” dos nossos dias…

    28 out 2014   //   por   //   Colunas  //  2 comentários

    Nos anos noventa, exatamente em 1992, o Rev. Caio Fábio lançou um livro que ficou bastante conhecido: A Crise de Ser e de Ter. Quase todo mundo que frequentava alguma comunidade de fé tinha lido e falava sobre o assunto. Ouvi várias mensagens sobre o tema, que pipocava nas rodas de conversa da faculdade, já misturado com o consumismo e a globalização, e a partir de teóricos não religiosos, mas filósofos, sociólogos, antropólogos e historiadores. O mote era falado todo o tempo – estamos em crise: tratamos as pessoas como coisas e as coisas como pessoas, isso precisa ser revertido! Necessariamente, o livro de Caio Fábio e os escritos que circulavam entre a juventude e a intelectualidade da época respondiam aos anseios de tentar mudar aquela situação.

    A questão é que a situação, para nossa tristeza, não mudou. A crise acabou e vivemos um mundo de zumbis. Explico-me: segundo a cultura grega, “krisis” ou crise, é o que nos torna humanos, é o que nos faz lutar para viver, é o que nos impulsiona, é o que nos faz perguntar à vida e esperar dela respostas até a próxima pergunta. O hipócrita (hypokrités) é aquele que está abaixo (hypo) da crise (krités), isto é, é o ator de teatro, que usa máscaras, não se mostra verdadeiramente, não se expõe à crise, à vida. Se não existe crise, não existe vida humana.

    Tornamo-nos qualquer coisa que existe, mas não sabemos mais o que é viver. Infelizmente.

    Enquanto havia a crise de ser e de ter, ficávamos atentos para tratar as pessoas – o ser – como pessoas e as coisas – o ter – como coisas. Conseguíamos ver a diferença. Não éramos como aquele cego em quem Jesus tocou, mas que continuou vendo “homens como árvores” (Marcos 8,22-26). Enquanto havia a crise, aceitavam-se as diferenças entre as pessoas, os relacionamentos se mantinham e os aparelhos eram levados ao conserto. A crise movia a mola da vida e podíamos ver o por do sol junto aos amigos sem ter que saber o que eles tinham a oferecer a nós.

    Nas igrejas, as pessoas deixaram de amar a Deus e cantar louvores por aquilo que Ele é – o Maravilhoso Conselheiro, o Deus Forte, o Pai da Eternidade, o Príncipe da Paz (Isaías 9,6).

    Hoje se “ama” a Deus pelo carro zero, pela casa na praia, pela conta bancária, pelas cem vezes mais que Ele vai dar… o relacionamento com Deus virou barganha e idolatria. O mesmo ocorre com o tipo de “amizade” ou sei lá o quê que foi criado – não se “curte” mais o outro, “curte-se” o que o outro tem a oferecer: vantagens, conhecimento, dinheiro… definitivamente isso nem passa perto do que é amizade. Às vezes eu mesma me canso de um monte de gente que nem sabe meu nome direito, tampouco pergunta se estou bem, mas sabe os dois doutorados que eu curso e acha que sou uma consultoria ambulante pra dar todas as respostas de que necessitem.

    Jesus percebeu que aquele cego precisava de outro toque para enxergar gente como gente e árvore como árvore. Teve compaixão dele e o tocou novamente. Ainda bem que o cego permitiu e passou a ver distintamente cada coisa. Ali ele passou a viver a crise e entendeu o que é a vida. Meu pedido hoje, caro leitor, é que possamos voltar à crise e entendamos que a vida não é uma sucessão de satisfações de tudo que queremos ter, mas é a satisfação interior de tudo que podemos ser.

    Que o Deus que é sendo nos abençoe!

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    Alessandra Viegas, membro da Catedral, é professora, Coordenadora de Ensino e Capacitação e professora da Escola Dominical.

    2 comentários

    • Mulher de Deus,Sua sabedoria na Palavra é admirável.Sou sua fã de coração.Bjo,

      • Muito obrigada, minha linda Fátima!!
        Que possamos cada dia levar essa Palavra que liberta e ensina a viver!!
        Bjks!!

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